Arquivo mensal: janeiro 2005

Aulas ao vento

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Falta pouco menos de um mês para meu aniversário de 24 anos. Confesso que me assusta parar pra pensar nisso. Mas também fico feliz em saber que já conquistei muitas coisas nesse tempo.

 

Sempre fui um pouco precoce, talvez por ter convivido muito com pessoas mais velhas. Quando todas as outras meninas brincavam de boneca, meu sonho era ser adolescente. Certa vez, fiquei com muita raiva quando, aos onze anos, minha mãe disse que eu era ainda pré-adolescente.

 

Minha brincadeira favorita era dar aula para as paredes. Isso mesmo, eu amava bancar a professora e, como não havia alunos, era obrigada a ensinar para o vento. Fazia minha mãe comprar diário de classe, giz antialérgico e, é claro, quadro negro. Mas não bastava pra mim aqueles quadros vendidos em papelarias. Aproveitando uma reforma na casa, o pedreiro “construiu” um quadro negro de cimento, de parede a parede, na área interna de minha casa.

 

Foi a glória. Passava tardes inteiras dando bronca nos “alunos”, corrigindo deveres de casa e ensinando a matéria que tinha acabado de aprender na escola. Só não gostava quando algum vizinho bisbilhoteiro me olhava da janela, certamente me achando uma louca.

 

 Felizmente não era nada patológico. Pelo contrário, eu fixava muito mais o conteúdo que aprendia nas “aulas de verdade” e isso sempre resultou em boas notas, modéstia parte. Às vezes, cansada de falar horas sozinha, dava aulas de inglês para a Cleide, que trabalhou em minha casa durante muitos anos. Meses atrás, inclusive, rimos muito ao telefone lembrando dessa época.

 

Creio que uma das razões para essa minha precoce idade mental foi o fato de sempre ter assumido muitas responsabilidades. Comecei a aprender inglês com seis anos de idade, a ter aulas de piano com nove e aos quinze, já era monitora do Conservatório de Música de minha cidade. Além disso, também dava aulas de teclado em casa e ainda tocava na igreja.

 

E não me arrependo de nada. Às vezes ficava cansada de tantas tarefas, mas minha mãe nunca me deixou desistir (ainda bem!). Hoje, prestes a completar 24 anos, o saldo é muito positivo. Que venham outros aniversários e novas lembranças.

Para relaxar um pouco, aí vai uma poesia de outro mestre, o Guimarães Rosa:

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O correr da vida embrulha tudo.

A vida é assim, esquenta e esfria,

aperta depois afrouxa

E depois desinquieta. O que ela quer

da gente é coragem.

O que Deus quer é ver a gente

aprendendo a ser,

Capaz de ficar alegre e amar,

no meio da alegria.

E ainda mais alegre no meio da tristeza.

Todo caminho da gente é resvaloso

mas cair não prejudica demais,

a gente levanta,

a gente sobe, a gente volta.

Ainda sobre o Fórum Social Mundial

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É impressionante como a imprensa trata o Fórum com estranhamento. A cobertura que se faz é sempre sobre o inusitado, o “diferente”. Só se fala do radicalismo de certos grupos, das pessoas que tiveram que se hospedar em motéis, dos DOIS manifestantes presos durante o discurso do presidente (isso sim em enorme destaque, manchete de página). É certo que a imprensa não pode mais ignorar o Fórum, que já acontece há cinco anos. Mas o resultado que se vê nos jornais ainda é muito aquém do que realmente é o evento. A esse respeito, ninguém melhor que o mestre Veríssimo pra fazer uma crítica contundente. Coluna de ontem, do Globo:

 

O fórum concreto e o fórum abstrato

 

O Fórum Social Mundial de Porto Alegre começou como uma paródia birrenta da reunião dos ricos e poderosos em Davos. Uma malcriação, uma inconseqüência de crianças. Pelo menos foi assim que a nossa grande imprensa o viu, no início. Lembro-me do próprio ombudsman da “Folha de S. Paulo” estranhando o desdém com que o jornal tratava o Fórum, apesar das questões e dos nomes importantes trazidos a Porto Alegre já nas suas primeiras edições. O pouco espaço dado ao evento na imprensa nacional se concentrava no folclórico e no espetaculoso — enfim, nas criancices. A repercussão internacional do Fórum e a sua própria expansão de ano para ano, e a crescente evidência de que a saúde e a sanidade do planeta dependem de se encontrar alternativas para o conchavo de Davos que certamente não sairão de Davos, acabaram aos poucos com o desprezo da grande mídia. Que continua neoliberal de coração mas, ultimamente, disposta a examinar opções. Uma extensa cobertura jornalística do atual Fórum começou antes mesmo do Fórum. Os maiores jornais nacionais estão dedicando páginas inteiras ao Fórum, diariamente. Inclusive a “Folha”. Nunca “inconseqüentes” tiveram tanta atenção.

 

Mas persiste a idéia de que em Davos se reúne gente grande e aqui menores chorões. Lá pessoas sérias tratando da realidade do mundo, aqui idealistas ingênuos e bagunceiros atrás de utopias ultrapassadas ou do caos. Lá questões concretas, aqui abstrações sortidas levando a nada. Mas sabe qual vai ser o assunto dominante nos escaninhos de Davos, mesmo que não conste dos debates oficiais? O déficit americano agravado pela guerra e o efeito arrasador do seu financiamento sobre as economias e o equilíbrio cambial de todo o mundo. Ou sobre o futuro imediato de um capitalismo refém da mais etérea abstração de todas, a do custo arbitrário de um dinheiro que nunca desce à terra. Enquanto isto, em Porto Alegre se estará discutindo, entre algumas criancices, o uso do chão, a boa manutenção do planeta, a preservação da água e a justa distribuição do pão. E a realidade mais concreta de todas: a vida humana, como protegê-la e como dignificá-la. Porto Alegre, dez a zero.

Minhas aventuras no Fórum Social Mundial

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Aproveitando o gancho, vou contar um pouco sobre minha ida ao Fórum Social Mundial, em Porto Alegre (a foto acima é do site do evento). Esta foi uma experiência muito singular e marcante pra mim. Era a 2ª edição do evento, em 2002, quando eu e meus amigos da faculdade resolvemos embarcar nessa “aventura antropológica”. Isso a uma semana do início do Fórum.

 

Foi uma correria só: fazer a inscrição no Acampamento Mundial da Juventude (sim, nós acampamos durante sete dias!), arranjar credenciais de imprensa (fomos como jornalistas da TV UFF) e passagem de avião. Mas estávamos empolgadíssimos.

 

Ao chegar lá, meu sentimento era de total encantamento com aquela multiplicidade de idéias, de culturas, de pessoas. No acampamento, por exemplo, ficamos ao lado da barraca do MST, que abrigava famílias inteiras, já acostumadas àquela rotina para nós tão desgastante.

 

Como já estagiava na época, fui incumbida também de trazer matérias para o Caderno de Educação da Folha Dirigida, e por isso tive a oportunidade de entrevistar muitas pessoas do acampamento. Lembro-me de ter conversado com um senhor, médico de Porto Velho, que na juventude havia sido líder estudantil. Tirou férias só para ir ao Fórum e ver de perto o que era, para ele, uma volta no tempo.

 

Com credencial de imprensa, tivemos acesso a todos os debates, painéis e principais eventos do Fórum. Logo no primeiro dia, demos um jeito de ir à coletiva do Lula, então candidato à presidência. Hoje pode parecer piegas, mas pra mim foi muito emocionante ver o Lula, Dirceu,  Mercadante e Suplicy de perto. Naquela época, a esperança de mudança era iminente. Era impossível ficar alheio àquele clima.

 

Fora os intelectuais estrangeiros, dos quais muito tinha ouvido falar nas aulas da faculdade: Boaventura Sousa Santos, Chomsky, Ramonet, e tantos outros. Perdi as contas de quantas fitas usei para gravar as palestras. Aliás, tenho todas elas até hoje.

 

Em meio à tietagem e até um certo deslumbramento, confesso; vivi intensamente os dias do 2º Fórum Social Mundial. Voltei louca pra colocar no papel tudo o que tinha visto e ouvido. Como nunca fui muito de farras, posso dizer que participei mesmo dos eventos, das caminhadas, dos discursos. À beira do Guaíba, na Porto Alegre de 2002, era muito forte a certeza de que “um outro mundo era possível”.

Um pitaco

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Bom, e pra fazer jus ao nome deste blog, lá vai um pitaco factual: E essa história das gordinhas de Ipanema serem na verdade… tchecas! Só mesmo um correspondente americano, que deve escrever as matérias do escritório de casa, pra mandar uma dessas…

 

Tudo bem que a pauta era legítima: a pesquisa do IBGE sobre a obesidade no Brasil, mas daí a fazer esse gancho… Assim não dá, Larry Rother! Vê se sai de casa e vai andar por Copacabana, Ipanema ou Itacoatiara, para mencionar uma praia da minha querida Niterói.

Um pouco de poesia

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Escrita por mim em 23 de novembro de 2003:

Não sei o que acontece

Mas sentir tua presença

Me enriquece, estremece.

 

Não sei porque acontece

Nem se é o que parece

Mas cruzar de perto teu olhar

Faz meu dia mudar, maravilhar.

 

Não sei como acontece

Nem se haverá um fim

Pensar assim me entristece.

 

Prefiro deixar a vida nos levar

E não deixar cada momento passar

Prefiro acordar sem nada saber

Assim é melhor, surpreender.