Arquivo mensal: fevereiro 2005

O amor é cego

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Para animar a tarde, publico esta charge engraçadíssima que tirei do blog do Cal, do Globo Online:

 

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Pitaco-barraco

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Meu pitaco de hoje é sobre o casamento-espetáculo do Ronaldinho e da Daniela Cicareli. Ok, ok, uns podem dizer que esse assunto é fútil, mas é impossível ficar inerte à balbúrdia em que se transformou a tal cerimônia.

 

Ontem, no Faustão, ela bem que disse uma verdade. Por que anunciar o casamento no Fantástico e depois fechar as portas para a imprensa na festa? Agora, dizer que foi uma cerimônica simples, íntima e só para a família foi demais… Como bem disse a Danúzia Leão, casar num castelo só não é brega pra quem já nasceu em um!

Menina de Ouro

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Como já falei aqui sobre meu aniversário, meus 24 anos, vou mudar de assunto e falar sobre meu fim de semana. Mas isso não impede que os blogueiros me dêem os parabéns!

 

 

Sábado vi o filme “Menina de Ouro” e fiquei simplesmente encantada. Direção e atores perfeitos, história surpreendente e até a polêmica da eutanásia, que fechou muito bem a história. Chorei quase o filme inteiro, de soluçar. Aliás, o cinema estava todo assim. Marcos olhava pra mim e ria (vê se pode, não sei como os homens podem ser tão insensíveis)… Não assisti ao “O Aviador”, mas não creio que seja melhor que “Menina de Ouro”, ainda mais depois dos Oscar de melhor filme e diretor (dá-lhe Clint Eastwood!).

 

Não quero estragar a surpresa de quem ainda não viu o filme, mas o diferencial pra mim foi que a história conseguiu surpreender, pois todos achavam que o fim seria a vitória da boxeadora, depois de tanta luta para ser reconhecida. Se tivesse terminado aí, o filme seria típico cinema americano, com aquelas histórias de jovens vencedores, que não desistem do sonho e vencem. Um clichê mais que batido.

 

Mas Clint Eastwood surpreende e o filme dá uma reviravolta total. E por isso se torna genial. Morgan Freeman é também um espetáculo à parte, como sempre. Uns até podem dizer que o filme não é politicamente correto, que pode até ter gerado uma polêmica desnecessária. Mas o roteiro é tão sensível que eu não tive coragem de condenar a eutanásia. Nessa parte do filme, quando já estava aos prantos, senti uma estranha sensação de alívio pela personagem. Afinal, quem somos nós para negar o pedido de alguém que quer parar de sofrer tanto, que quer apenas descansar e morrer?

 

É claro que esse é um assunto muito delicado e que as justificativas não se esgotam. É claro que quem decide o futuro do homem é Deus, mas como saber se não é essa a Sua vontade? Não concordo com a legalização da eutanásia, isso no Brasil jamais funcionaria. Mas sinceramente não sei o que faria se isso acontecesse com uma pessoa querida, um parente próximo a mim.

 

De qualquer forma, “Menina de Ouro” vale cada centavo do ingresso gasto (e caro, por sinal). Vale por sensibilizar, comover, incomodar. E se um filme é capaz de trazer à tona esses sentimentos, é porque cumpre muito bem seu papel.

Mais uma das minhas

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Qual é o verdadeiro sentido das tuas palavras?

O que realmente você quer dizer?

Por que os teus olhos me chamam desse jeito

Louco, fico sem saber o que fazer.

 

Por que, mesmo sabendo que vai acabar

Não consigo dizer não?

Eu já sei no que isso vai dar

Mas ainda assim sigo meu coração.

 

O que você tem de especial

Que mexe dessa forma comigo?

Com você tudo é tão natural

Real e às vezes sem sentido.

 

Não posso pensar no que está acontecendo

Não admito me envolver tanto

Porque senão isso vai virar um tormento

Vivo o agora, por enquanto.

Lembranças de um nascimento

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Primeiramente, quero pedir desculpas aos meus leitores (mais especificamente Alé, Lara e Nininha, que reclamaram com razão), por não ter escrito ontem. É que passei o dia todo às voltas com a tal contribuição sindical que temos que pagar, além da declaração de imposto de renda… enfim, essas coisas chatas e burocráticas que não estava acostumada a lidar. Fiquei até surpresa com as cobranças, que bom que vocês gostam do que escrevo. Mas prometo me esforçar mais!

 

Depois desse adendo, vamos ao que interessa: lembranças. A de hoje é bem recente.

 

 

Era uma quinta-feira, 22 de abril de 2004. Eu estava em casa, tinha acabado de lanchar e já me preparava para dormir, quando toca o telefone. Era minha mãe:

 

– Minha filha, seu sobrinho vai nascer agora! Fabrício acabou de ligar e disse que eles já estão no hospital -, falava ela, aos prantos.

 

A surpresa e apreensão foram imediatas. Afinal, ainda faltava uma semana para minha irmã completar oito meses de gravidez. Mas nem tive tempo de pensar nisso, porque mamãe foi logo me dando uma difícil tarefa:

 

– Lívia, preciso pegar o avião amanhã de manhã para Recife. Veja se tem passagem, porque vou pegar o ônibus para o Rio hoje ainda.

 

A princípio não parecia tão complicado. Mas o problema é que eu não tinha cartão de crédito na época e, por telefone, a Varig só vende passagens dessa forma. Liguei para o Marcos.

 

– Ele saiu com o André, Lívia. Quer o celular dele?, dizia a mãe do Marcos, com toda a calma do mundo.

 

Antes de ficar furiosa porque ele tinha saído sem me avisar, respirei fundo, liguei para o André e pedi pra falar com o Marcos.

 

– Amor, Guilherme vai nascer. Preciso que você venha pra cá agora, porque temos que ir ao Santos Dummond comprar as passagens da minha mãe.

 

Quando ele chegou na minha casa, descobrimos que o Santos Dummond já estava fechado para venda de passagens e que teríamos que ir ao Galeão (que é muito mais longe). Só que também não tínhamos certeza se iríamos conseguir, já que era quase onze da noite.

 

– Vamos passar na casa do Gibão e levá-lo conosco, já que ele trabalha na Varig.

 

A grande idéia do Marcos funcionou. Acordamos o Gibão e fomos rumo ao Galeão. Chegando lá, compramos as passagens sem dificuldade e ainda com desconto.

 

– Você deu sorte – dizia o homem do guichê. Não costumamos ter passagens nos vôos com desconto sem muita antecedência.

 

A essa altura, já tinha recebido a notícia de que Guilherme tinha nascido e estava tudo bem com ele e com minha irmã. Apesar de prematuro, nasceu saudável e muito lindo!

 

Voltei pra casa e acordei ainda de madrugada para buscar minha mãe na rodoviária e levá-la ao aeroporto. Marcos foi comigo, claro (ele diz que essa foi a maior prova de amor que ele me deu). No café do Galeão, ainda tive tempo para escrever um bilhete para o Gui, que era exatamente assim (pedi para minha irmã ler no telefone): 

 

“Querido Guilherme, você já chegou mobilizando sua tia no Rio! Já era madrugada quando estava no aeroporto comprando a passagem da sua avó. Você foi um bebê muito esperado e festejado, aliás, hoje estamos todos em festa. Nasceu o pernambucano-capixaba mais querido!”   

Um mês de blog!

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Hoje este blog está completando um mês de existência. Com exceção do período carnavalesco, postei textos novos todos os dias e espero continuar assim, até acabar a criatividade (o que acho meio difícil, porque tanta coisa acontece nessa minha vida corrida…). Obrigada aos meus dois ou três leitores – não chego a ter 17, como o Xexéo, mas um dia chego lá!

Sociedade do espetáculo

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Sobre a morte da freira Doroty Stang, este texto do Muniz Sodré é brilhante e o melhor que li sobre o assunto. Vale a pena ler até o final, é uma aula de jornalismo. Foi publicado no Observatório: 

 O espetáculo chegou a Anapu, PA

 

Raramente nos damos conta de como a mídia, que é hoje uma verdadeira forma de vida (com ambiência e códigos próprios), “veste” culturalmente determinadas ações na vida real, que em princípio não teriam nada a ver com o mundo do espetáculo. Mas os casos são abundantes, para quem se dispuser a observar.

 

Veja-se, por exemplo, a matéria jornalística que descrevia a chegada das tropas do Exército a Anapu, no Pará (O Globo, 18/2/2005), para dar suporte às ações das polícias Civil e Federal e dos demais órgãos que participarão da força-tarefa contra a grilagem, como Incra, Ibama e Funai. Como é amplamente sabido, toda a operação foi desencadeada depois do assassinato de uma missionária que a imprensa insiste em qualificar como norte-americana (índice aparente da maior importância atribuída ao crime), embora se tenha conhecimento de sua naturalização brasileira.

 

Descreve o jornal:

 

“Os homens do Exército desembarcaram ontem em Anapu sob os olhos de uma platéia curiosa. Eram 7h e o ruído dos helicópteros se aproximando já despertava a atenção dos moradores (…) O desembarque do primeiro pelotão mais parecia uma cena de guerra, no meio de um campo de futebol da cidade. Os soldados que desciam dos helicópteros, um Blackhawk e um Cougar, se atiravam ao chão, postados lado a lado, com seus fuzis 762 em posição de tiro”.

 

Declarações de efeito

 

Igual ao carateca Chuck Norris, que nos filmes entra e sai de helicóptero das florestas vietnamitas, semeando o terror vingativo em campos e aldeias. Igual à ficção cinematográfica classe C – portanto, apenas com o acréscimo de detalhes risíveis. De fato, não havia nenhuma situação de combate, já que a zona de conflito não se situa exatamente no “maltratado campo de futebol usado como área de pouso”, mas os nossos guerreiros, com suas roupas de camuflagem (o jornal falava em “roupa camuflada”, o que nos parece um contra-senso), atiravam-se ao chão.

 

Para quê? Evidentemente, para efeitos de fotografia, filmagem e espetáculo local, ou seja, para a sua reprodução midiática. Lembra um pouco essas periódicas ocupações policiais dos morros cariocas: tropas de mais de mil homens invadem as favelas, prendem um ou dois pés-rapados, apreendem pequenas quantidades de drogas, armas e munições, e no final tudo fica na mesma de antes. Mas, aos olhos da mídia-Big Brother, produz-se uma sensação de segurança. As tropas em Anapu buscam esse efeito midiático.

 

É no fundo um efeito da mesma ordem que as declarações oficiais sobre o acontecido. O público-leitor ficou sabendo que o presidente Lula “condenou de modo veemente o assassinato cruel e covarde da irmã Dorothy Stang, assim como as demais mortes ocorridas no estado do Pará”; que a ministra Marina da Silva anunciou que “não podemos nos render à lógica dos que tentam intimidar as ações do Estado e das comunidades”; que se reuniram no Palácio do Planalto o presidente da República e mais nove ministros; que o presidente foi enfático: “Isso é inadmissível. Não podíamos ter deixado que isso acontecesse”.

 

O problema é que deixaram. E deliberadamente, já que poucas semanas antes o governo federal deu carta branca às madeireiras para continuar predando a região amazônica. Foi algo como a licença dada nos livros e filmes ao personagem James Bond, agente 007, inclusive matar, para desempenhar a sua tarefa. Depois do assassinato da missionária, anunciou-se às pressas um “pacote ambiental”, que cria uma reserva florestal e produz simulacros de obstáculos à ação das madeireiras. Estas, sempre vorazes em sua grilagem continuada, fazem o jogo, protestam.

 

Para nada

 

Isso, claro, diz respeito a uma teoria da notícia. No caso do Pará, entretanto, nada era realmente imprevisível, porque os assassinatos encomendados são há muito tempo uma constante, sem que se mexa de verdade uma palha sequer a fim de não perturbar seriamente a miríade de alianças com os “caciques” locais. Por pressão destes, o governo federal deu a “licença 007” às madeireiras. Agora, com um pacote acolhido por comentaristas em frases do tipo “antes isso do que nada”, dá um recado para uso externo, repetindo em outros termos o famoso lema malufiano do “estupra, mas não mata”, ou seja, estupre-se a floresta, mas não se mate ninguém. Ou pelo menos alguém com nome equivalente a Dorothy Stang. Sim, porque as notas oficiais referem-se às “demais mortes”, mas ninguém tem nome suficientemente americano para ser destacado.

 

Daí a inevitável analogia entre a agitação governamental e a cena de chegada dos helicópteros a Anapu. A violência na região amazônica não é problema que se resolva apenas com tropas, polícia ou “pacote ambiental”, de que natureza seja. O fato que se infere dos acontecimentos fragmentados na mídia é que há um enorme problema social com o qual não se pode lidar em termos do que Antonio Gramsci (1891-1937) chamou de “pequena política”, essa do dia-a-dia gerencial dos conchavos, das alianças espúrias ou da administração de pacotes, que publicamente se traduzem nas “sensações” midiáticas. O problema é basicamente político e requer a ação de uma grande política transformadora.

 

Fora dela, todo o barulho dos helicópteros, das armas e do anúncio de pacotes faz apenas lembrar um poema de Ascenso Ferreira sobre o gaúcho – talvez sobre Getúlio Vargas, sabe-se lá. Vale a pena reprisar essa pequena jóia de métrica e sonoridade:

 

“Riscando os cavalos!

 

Tinindo as esporas!

 

Través das cochilas!

 

Saí de meus pagos em louca arrancada!

 

– Para quê?

 

– Para nada!”