Arquivo mensal: março 2005

A música das almas

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Do mestre Vinicius:

Na manhã infinita as nuvens surgiram como a loucura numa alma

E o vento como o instinto desceu os braços das árvores que estrangularam a terra…Depois veio a claridade, os grandes céus, a paz dos campos…
Mas nos caminhos todos choravam com os rostos levados para o alto
Porque a vida tinha misteriosamente passado na tormenta.

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Amizades

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É difícil pensar em amenidades e lembranças quando se está passando por uma turbulência daquelas… Não vem um episódio engraçado na cabeça, não dá vontade de escrever. Então prefiro hoje falar sobre um assunto que me rondou todo o dia de hoje.

Um amigo de verdade não se reconhece só pelo tempo de amizade – embora isso seja muito importante porque, inevitavelmente, os grandes amigos são amigos há muitos anos. Mas são os fatos da vida que fazem com que uma pessoa se descubra e se mostre verdadeiro amigo. Principalmente as fases difíceis, nas quais a gente precisa desesperadamente de um conselho, de alguém com quem conversar.

 

É verdade que os namorados passam e os amigos ficam. Mas ficam os AMIGOS e não os colegas, porque esses passam até antes do que os namorados. Você reconhece um amigo leal quando ele te dá conselhos sensatos, quando ele te incentiva a falar a verdade, quando ele sabe ouvir você mesmo que seus lamentos durem horas. Um amigo leal não te influencia a fazer coisas erradas, mas sim a ousar honestamente.

 

Tenho grandes amigos, uns que fiz há pouco tempo, outros desde a infância. E em todos eles posso perceber claramente essas características. É verdade que já me decepcionei com uma grande amiga, que acreditei ser leal. Mas não era. E só eu sei o quanto dói a dor da decepção com um amigo. Muito mais do que com um namorado. Muito mais.

 

A traição de um amigo dói no peito, na alma. E às vezes a gente, por gostar muito daquele amigo, não reconhece a maldita inveja, os sentimentos ruins. Passei anos confiando numa amiga que não merecia um minuto da minha atenção.

 

Por isso me preocupo tanto com as amizades das pessoas que amo, principalmente as da minha família. Mas sei que às vezes não adianta falar, aconselhar. A pessoa tem que viver aquilo e quebrar a cara para aprender. Infelizmente.

 

Agradeço a Deus pelos meus queridos amigos, sem os quais a minha vida não teria o menor sentido.

A fábula de uma formiga

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Era uma vez uma formiga, a mais bela dentre todas de seu formigueiro. Era tão formosa que ofuscava o brilho das outras. Além disso, dispunha de todas as regalias de uma formiga bem cuidada e paparicada. A formiga cresceu acreditando ser a melhor e que com ela ninguém podia.

Mas algo não a deixava totalmente feliz. Às vezes, ela sentia uma insegurança muito grande, medo de que as outras formigas se aproximassem dela só por sua beleza. Ela não sabia que, além de bonita por fora, era também bonita por dentro. E, por não saber, não confiava nas companheiras e nem por elas tinha amor.

 

Os formigões eram loucos pela bela formiga. Faziam de tudo para chamar sua atenção. Mas o ego da formiga era grande demais para amar um formigão de verdade. Ela sempre achava que poderia estar perdendo algo melhor. E por isso nunca soube o que era amar alguém de verdade. Ela fingia gostar, se entregar mas, no fundo, estava só esperando a hora de achar um formigão mais atraente.

 

Só que a formiga não contava com a ironia do destino que, traiçoeiro, revelou suas verdadeiras intenções para todo o bando. Envergonhada, a formiga ficou muito triste, pois sua beleza havia se tornado muito pequena no meio da grande decepção.

 

Sem saber o que fazer e como agir, a formiga negou. Agora ela pensa no próximo passo. À sua frente, há um enorme abismo e às suas costas, as formigas companheiras de braços abertos. Há uma escolha a fazer e uma atitude a tomar. Tomara que a formiga escolha o caminho certo.

Lembranças de Páscoa

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Nunca acreditei em Coelhinho da Páscoa ou Fada dos Dentes. Lá em casa, minha mãe só nos fazia acreditar piamente em Papai Noel. Mas nem por isso nossa Semana Santa era menos animada.

 

Quando éramos pequenas, meu pai ia até Vila Velha, na fábrica da Garoto, comprar nossos ovos de Páscoa. Além de mais baratos, havia mais variedades, cada ano ele chegava em casa com um sabor diferente e melhor.

 

A nossa alegria era esperá-lo na porta e disputar a tapa os inúmeros ovos. Nem agüentávamos comer todos, os chocolates acabavam rolando semanas. Mas o melhor pra nós era a surpresa.

 

Aliás, eu sempre fui apaixonada por chocolate e, sem preconceito, pelos da Garoto. E não é só por ser capixaba convicta e de coração. Meu avô morava na rua da fábrica da Garoto, na Glória, em Vila Velha. O cheirinho de chocolate que a gente sentia da casa dele era simplesmente indescritível. Parecia que estávamos dentro da fábrica.

 

É uma pena que a Garoto tenha sido vendida por má administração. Ela sempre foi um dos orgulhos do meu estado e dominava o mercado de chocolates junto com a Nestlé. Nunca vou esquecer das visitas que fazíamos à fábrica, daquele mundo de chocolate maior que a gente, do cheirinho da casa do meu avô…

 

Hoje, já crescidas, ainda ganhamos ovos de Páscoa, mas eles são comprados no Perim mesmo, grande supermercado da minha cidade. Podem até ser da Garoto, mas o sabor não é o mesmo daquela época. Não tem gosto de infância…

Antes de amar-te, amor, nada era meu

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Poesia de Pablo Neruda:

 

Antes de amar-te, amor, nada era meu

Vacilei pelas ruas e as coisas:

Nada contava nem tinha nome:

O mundo era do ar que esperava.

E conheci salões cinzentos,

Túneis habitados pela lua,

Hangares cruéis que se despediam,

Perguntas que insistiam na areia.

Tudo estava vazio, morto e mudo,

Caído, abandonado e decaído,

Tudo era inalienavelmente alheio,

Tudo era dos outros e de ninguém,

Até que tua beleza e tua pobreza

De dádivas encheram o outono.

Justiça

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Ontem assisti com minhas amigas Paula e Flora ao documentário “Justiça”. A primeira cena é a mais chocante do filme, a de um jovem paralítico que está sendo julgado, diz que é inocente, e pede para ser transferido para um hospital. O motivo? Argumenta ele que dividia a cela com mais 79 presos e que não havia estrutura para um deficiente como ele. O juiz responde que não pode fazer nada, porque quem tem que dar o laudo é um médico e não ele. Resultado: o rapaz volta para a prisão superlotada, já que seu processo ainda demoraria muito até o julgamento final.

 

Depois o filme peca em alguns momentos, porque tenta convencer o espectador de que a câmera é invisível e neutra. E não é. Todas aquelas situações filmadas sofreram algum tipo de interferência por conta da câmera, certamente. Tem até uma cena onde pode-se ver claramente que a defensora pública (principal personagem) está sendo “dirigida” por alguém, ao dar um beijo de boa noite na filha.

 

As imagens das celas lotadas de presos também chocam. As condições são subumanas, é inacreditável ver centenas de homens amontoados, apertados, sem espaço nem para abrir os braços. Que tipo de recuperação eles podem ter?

 

É bem verdade o que a defensora pública diz a certa altura do filme. Ela comenta que os processos que se arrastam na Justiça, em sua maioria, são de pequenos furtos, os chamados “ladrões de galinha”. Ela conta que um preso foi condenado por ter roubado três vidros de óleo para pele de uma loja, que juntos custavam R$20. Isso num país onde as prisões não suportam mais o número de presos e onde os verdadeiros criminosos estão soltos.

 

“Justiça” mostra toda a injustiça que cerca o mundo da criminalidade, dos julgamentos e também a prepotência e arrogância dos juízes, que se sentem infinitamente superiores à “ralé” que mandam para a prisão todos os dias. Vale a pena, é uma grande reflexão.