Arquivo mensal: novembro 2005

Na barca – Parte II

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A essa altura eu me revoltei, em pensamentos, obviamente. Como ela pode pensar na possibilidade de voltar? E ela responde à minha pergunta, mesmo sem saber:

_ Faria isso pela Maria, que tem apenas 9 anos. Ela precisa da presença do pai. Mas eu também tenho que mostrar a ela que sou forte e tenho amor próprio.

Quando parecia que a história havia acabado, o senhor pergunta:

_ Mas como isso foi acontecer?

_ Ele a conheceu na Internet, veja só. Enquanto eu trabalhava para ajudar nas despesas da casa, ele ficava no computador.

Nessa hora acho que não consegui disfarçar minha cara de espanto. Então é isso que nós, mulheres, ganhamos em troca da independência profissional. Ao invés de maior valorização, maior amor, ganhamos a boa e velha traição. Se antes a desculpa era que a mulher só dava atenção para a casa e os filhos, agora é o emprego o vilão da história.

Revoltante, inaceitável. E novamente me surpreendo quando o senhor começa a dar seu testemunho:

_ Eu e minha mulher também passamos por uma situação parecida, mas graças a Deus ela me perdoou. Eu me encantei com uma menina bem mais nova do que eu, do trabalho, mas consegui me redimir a tempo. Apesar disso, sei que a confiança que ela tinha em mim nunca mais será a mesma. Hoje temos mais de 30 anos de casados e ela sabe de todos os meus passos. Não quero dar motivo para que ela sofra de novo.

Não tinha pensado por este outro lado. Todos erram, é fato. Mas por quê? Por que jogar fora um casamento, uma filha, uma vida, em troca de uma aventura efêmera, passageira?

Quando a mulher se levantou, percebi seu rosto abatido, visivelmente triste. Ela era bonita, cabelos lisos, nem gorda nem magra, mas bonita. Olhei para sua mão e não tinha aliança (eu tenho mania de olhar a mão das pessoas). E torci para que ela vire o jogo e seja feliz.

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Na barca – Parte I

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Não sou antropóloga, mas creio que as milhares de pessoas que circulam pelas barcas diariamente são um ótimo campo de estudo para o ramo. Mas sou jornalista e, como tal, observadora e curiosa.

Dia desses estava sentada ao lado de uma moça, de uns 30 anos, no máximo. Nada de especial, já que diversas vezes a grande maioria daquelas pessoas passa despercebida pra mim. De repente chega um senhor, que a reconhece. Barca lotada, ele fica em pé, ao lado da moça e os dois começam a conversar.

Ele faz perguntas que qualquer pessoa faria, como:

_ Tudo bem com você? E seus pais, o trabalho?

Mas quando ele pergunta sobre o marido, ela responde:

_ Não estamos mais juntos.

O senhor se assusta, e a moça explica:

_ Nós estamos nos separando. Descobri que ele me traía há três anos com outra mulher e que tem um filho de quatro meses.

Eu, que estava entre cochilos, logo acordei. O senhor estava com uma cara assustadíssima, daquelas que a gente fica quando não sabe o que dizer. Mas ele disse:

_ Nossa, como assim? Vocês eram casados…

_ Há 12 anos.

_ E a Maria?

Deduzi que Maria só poderia ser a filha.

_ Maria já sabe de tudo, fiz questão de contar pra ela.

Conforme prosseguia a conversa, descobri que aquela mulher trabalhava durante o dia no Centro e à noite, em São Gonçalo. Que ela havia comprado um escritório para o marido há pouco tempo e que estava pedindo a sala de volta, já que tinha gastado dinheiro à toa. Deu pra perceber claramente que a mulher era muito religiosa. Ela até comentou que os dois haviam feito encontro de casais recentemente. Ela titubeou quando o senhor perguntou:

_ Você acha que tem volta?

Eu estava certa de que ela responderia não, é claro. Mas ela disse:

_ O pior pra mim é essa criança, que será um eterno vínculo com a outra mulher. Além disso, não sei se ele iria querer voltar. (continua…)