O silêncio do trocador

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Sexta-feira, 18h. Fim de uma semana agitada no trabalho, cansaço só em pensar no trânsito até a volta pra casa. Vou para o ponto e, como sempre, tenho que esperar, no mínimo, 20 minutos até conseguir sentar (ninguém agüenta duas horas em pé no ônibus).

É bem verdade que houve dias em que a espera já chegou a 40 minutos, isso sem contar o tempo que levo até chegar em casa. O fato em si já é injustificável, ainda mais em horário de rush. Como se não bastasse, ainda vejo, do outro lado da rua, uma fila enorme de “frescões” – aqueles que custam mais que o dobro do ônibus normal – saindo vazios rumo à Zona Oeste.

Alguns cedem e fazem justamente o que os milionários donos de empresas de ônibus querem: saem da fila gigantesca e pegam o frescão. Eu, além de não poder aumentar meu gasto com transporte, ainda resisto à pressão por convicção mesmo. E continuo esperando…

Enquanto estou na fila, branco total: esqueço quanto custa a passagem. Do nada, sem motivo, fico na dúvida cruel se o preço é R$ 2,55, R$ 2,65 ou R$ 2,85. Puxo pela memória, mas não vem nada. Enfim, tenho a ligeira impressão de que é R$ 2,85. Separo o dinheiro.

Quando entro no ônibus, tento localizar alguma placa com o preço da passagem, mas não há nenhuma. Dou o dinheiro ao trocador, ele conta as moedas e libera a roleta. Sento nos bancos da frente e penso que estava certa, a passagem era mesmo R$ 2,85.

No meio da viagem, entre um cochilo e outro, ouço o trocador dizer a um passageiro, que parecia ser seu amigo: “Pois é, cara, a passagem tá R$ 2,55 há um tempão. Daqui a pouco aumenta”.

Acordo na mesma hora e levo um susto. Sim, eu dei R$ 0,30 a mais e o trocador nada falou ou fez. Penso se ele contou mesmo as moedas, se não percebeu o engano ou se teve consciência de que lhe dei dinheiro a mais e, mesmo assim, calou-se.

Fico imaginando como seria a vida desse homem, jovem ainda, uns 30 anos no máximo. Se era a primeira vez que ele fazia isso ou se já havia se calado outras vezes diante de um troco errado. Será que ele agiria da mesma forma se eu tivesse dado dinheiro a menos? Será que não perceberia, deixaria passar?

Pode parecer bobagem, mas fiquei pensando a noite toda no episódio. Talvez porque sou tão correta com dinheiro, odeio ficar devendo aos outros e, por diversas vezes, já devolvi troco que recebi a mais. Os centavos que perdi são irrisórios, jamais me fariam falta, mas o rosto indiferente e distante do trocador não me saía da cabeça.

É muito fácil reclamar dos escândalos envolvendo falcatruas milionárias. É mais fácil ainda condenar políticos e empresários que nelas se envolvem. Mas este país nunca será decente se não há honestidade no dia-a-dia, no tratamento com o próximo. Enquanto gente comum continuar perdendo R$ 0,30, não mudará muita coisa por aqui.

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