O julgamento do mérito

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Não é fácil passar num concurso público. E posso falar isso com propriedade: acompanhei de perto os dias e noites de estudos do meu marido até conseguir uma vaga. O estresse, a tensão, o mau-humor, as provas frustradas, tudo isso faz parte da rotina de um candidato. Sem falar das coisas de que ele precisa abrir mão: saída com os amigos, jantar com a esposa, viagem no fim de semana… No final, quando a tão sonhada vaga é conquistada, pode-se olhar para trás e constatar que todo o esforço valeu a pena.

Mas, e quando esse final não chega por motivos obscuros e duvidosos? Falo do concurso da Magistratura do Rio de Janeiro, que já é conhecido por suas polêmicas. Vez ou outra se fala de favorecimento a parentes de juízes e desembargadores, mas esse ano os doutores inovaram: de cerca de 300 candidatos que fizeram a última etapa de prova discursiva (ainda viriam as orais), apenas 3 passaram. Isso mesmo: 1% do total de candidatos foi habilitado a continuar no concurso.

Esse fato se resumiria apenas a números e a uma nota de rodapé de jornal se não tivesse acontecido tão perto de mim. Uma grande amiga estava entre os 300 candidatos e fora dos 3. Eu, que acompanhei cada etapa da sua jornada, estou convicta de que há uma enorme injustiça nos concursos da Justiça do Rio de Janeiro.

É no mínimo estranho que, de acordo com a excelentíssima banca examinadora, apenas 3 de 300 pessoas estejam aptas a se tornarem juízes. Certamente o critério usado foi o da perfeição. Se 30 tivessem sido aprovados já seria um absurdo mas, vá lá, não é um número irrisório. Mas 3 é. Três é demasiadamente de menos. É uma afronta e um desrespeito a pessoas que, como a minha amiga, abdicaram de momentos precisosos da vida e decidiram pela reclusão total. Tudo para não perder o foco, não desviar o olhar. A rotina era cara-a-cara com os livros e ponto final.

Assim se passaram meses de estudo, de nervosismo, de esperança. O funil ia diminuindo, mas as etapas também e isso era um alívio. Minha amiga já estava recarregando as baterias para o início da maratona de provas orais. Ser juíza é seu maior sonho.

O mais revoltante é o descaso com que esse assunto é tratado. Tanto se falou em fraudes e suspeitas, mas até hoje nada foi feito. Sabem por quê? Não cabe recurso ao resultado e, mesmo se coubesse, adiantaria pouco, já que quem julga o recurso é… a própria Justiça.

Enquanto esse acinte a olhos vistos continuar, mais pessoas irão desistir de ser juízes neste Estado. Afinal, quando o mérito não é o principal quesito avaliado, todo esforço é vão. Noites a fio, tempo e dinheiro investidos migram para outros concursos mais sérios e isentos.

É uma pena para o Rio, que perde futuros juízes decentes e extremamente vocacionados. E quem ganha com isso? Será que os doutores só pensam no dinheiro das inscrições e por isso abrem concursos todo ano para aprovar 3 pessoas? Se é que esses 3 chegarão até o fim. O que eles ganham com isso? A fama de uma banca rígida e super exigente? Ou a certeza maior, a cada ano que passa, de que há algo de muito estranho no concurso da Magistratura do Rio?

Veremos qual será a inovação do próximo concurso. Minha amiga já enxugou as lágrimas e voltou aos estudos.

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  1. Pois é Lívia, os juízes devem achar que 1 é pouco, 2 é bom e 3 é demais.

    Mas “três é demasiadamente de menos” mesmo.

    Deve ser muito ruim morar em um lugar onde isso aconteça!

  2. Olá Lívia,

    Gostei muito do seu texto. Me identifico com a sua indignação com tamanha atrocidade que há tempos vem ocorrendo nos concursos estaduais do Rio de Janeiro.

    E digo isso, pois também acompanho de perto a luta de meu noivo no caminho da aprovação em duas de suas tão sonhadas Instituições: A Magistratura e o Minist´rio Público. E posso lhe afirmar, que essa injustiça vem ocorrendo há pelo menos quatro anos seguidos. Numa sequencia de fraudes que não são apuradas e que acabam por minar os sonhos de seres vocacionados. E o pior… muitas vezes a própria sociedade, em razão das diversas reprovações, começam a questionar a capacidade de um candidato vocacionado! O que é extremamente injusto e pequeno. Mas acontece muito.

    Sua amiga não é a única a passar por isso. Meu noivo já atravessou uma segunda etapa nas provas do Ministério Público onde passaram 15 candidatos, sendo todos filhos, netos e esposas de procuradores; outra segunda fase da Magistratura, onde descobriram várias provas cópias de gabaritos. E só esse ano, foram dois na sequência, O do Ministério Público, onde se especulou algumas vagas marcadas, e o mencionado concurso da Magistratura com apenas três aprovados.

    Mas, infelizmente, essa é a realidade dos consursos estaduais no Rio de Janeiro.

    Por isso é muito importante que pessoas instruídas sobre essa realidade, manifestem sua indignação. E venho parabenizá-la por tal ato de coragem! Fiz questão de enviar seu texto ao meu noivo, na esperança de que possa ao menos consolá-lo nesse turbilhão de emoções e questionamentos que ele atravessa.

    Parabéns!

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