Arquivo mensal: dezembro 2008

Um pedido pela paz

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Ano Novo é tempo de paz, de comunhão, de amizade. Menos para israelenses e palestinos, que protagonizam, novamente, um derramamento de sangue que parece não ter fim. Já são mais de 320 palestinos mortos e 1.400 feridos.

 

Uma terra tão cheia de histórias de amor e perdão não consegue encontrar a paz. Meu maior pedido em 2009 é que os povos não se matem por questões religiosas. Que triste ver pessoas inocentes morrendo em nome de uma causa que só deveria trazer vida.

 

A foto abaixo me sensibilizou muito. Fiquei pensando na vida dessa criança, em seu futuro, se é que ele existe. Dói pensar que, enquanto um animal irracional é incapaz de matar outro se não for para sua sobrevivência, nós, seres humanos tão evoluídos, matamos tantos filhos por nada.

 

guerra

                                                  Foto extraída do Globonline

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Viver e pensar

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pensarLiguei a TV para assistir ao Manhatan Conection, meu programa favorito nas noites de domingo. Acabei vendo o finalzinho de uma entrevista da Marília Gabriela com um cara que até agora não sei quem é.

 

Peguei a entrevista bem no final mesmo, quando ela pede para a pessoa falar uma frase, ditado ou qualquer coisa de que goste. O tal cara começou a recitar uma poesia linda, de Fernando Pessoa.

 

Imediatamente fui pesquisar no Google que poesia era aquela que não conhecia ainda. Os versos de “Sobre o Viver e o Pensar” caem muito bem neste fim de ano tão reflexivo para mim. Em 2008, aprendi a dar valor ao que realmente importa. Aprendi que de nada adianta TER se o SER não estiver em primeiro lugar. E Fernando Pessoa sabia disso muito bem.

 

Sobre o Viver e o Pensar

 

Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental
Mas, reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual, porém, é a verdadeira
E qual a errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

Um Estado laico que assina tratados religiosos

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igrejaReligião é quase sempre um assunto polêmico. E quando misturamos Igreja e Estado, aí a polêmica é certa. A mais recente delas é o tratado assinado entre o governo do Brasil e o Vaticano, que confere formato jurídico às relações entre o Executivo Brasileiro e a Igreja Católica.

 

Mas o que isso significa? Li o conteúdo do tratado e logo percebi uma velha tática usada por quem conhece as artimanhas das palavras. Por várias vezes o texto reforça a independência entre Estado e Igreja, mas em seguida, faz uma afirmação que, embora contradiga essa independência, passa despercebida. Um exemplo:

 

Artigo 2º

A República Federativa do Brasil, com fundamento no direito de liberdade religiosa, reconhece à Igreja Católica o direito de desempenhar a sua missão apostólica, garantindo o exercício público de suas atividades, observado o ordenamento jurídico brasileiro.

 

Ou seja: o artigo reforça o direito de liberdade religiosa, mas dá somente à igreja Católica o direito de desempenhar a sua missão apostólica. Resumindo: um Estado que afirma ser laico em sua Constituição não pode, de maneira nenhuma, assinar um tratado com um Estado que é o representante máximo de uma determinada religião. É esse o ponto.

 

Dizer que o tratado não fere a liberdade religiosa é tentar esconder o objetivo de tal ato. Se o tratado não vai interferir na propagação das outras religiões no Brasil, então pra que conferir um formato jurídico entre o Brasil e o Vaticano? Quem será beneficiado com isso?

 

O Observatório da Imprensa tratou muito bem do silêncio da mídia brasileira sobre o assunto. O programa do dia 25/11 dá um belo panorama sobre questão (assista aqui). Participaram o reverendo Guilhermino Silva da Cunha, pastor da Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro; a pesquisadora e professora da USP Roseli Fischmann; e o representante da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Hugo Sarubbi Cysneiros.

 

Quem preferir, pode ler o resumo do programa aqui.

A melhor receita

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Estava com essa poesia guardadinha, esperando uns dias para publicá-la aqui no blog. Mal sabia eu que a demora tinha explicação, mesmo que inconscientemente: ontem recebi da Bela uma imagem perfeita para as lindas palavras de Drummond. Ela a descreveu assim: “Olha a foto que tirei enquanto eu e a cidade chorávamos…”. 

Impossível mesmo não se emocionar… Com a imagem e com as palavras. Casamento perfeito!

 

drummond_bela1

 

Receita de ano novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,

mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

 

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

 

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
 

“Sapatos, pra que te quero!”

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sapatadasManifestação em solidariedade ao jornalista das “sapatadas” no Bush / EFE

 

Sem apologia à violência, mas é impossível não concordar com a tentativa de sapatadas ao Bush. O jornalista iraquiano aproveitou o ímpeto de ousadia para desafiar o que ainda resta do presidente dos Estados Unidos. Pena que sua mira não é tão boa…

 

Leio no jornal que “a ignorância dos elementos básicos sobre a sociedade iraquiana e a insegurança do país podem ser uma das causas para o fracasso da guerra”. Jura? Ignorância americana? Quê isso, quanta injustiça!

 

Não bastasse, a matéria ainda relata que o Pentágono chegou a maquiar os progressos da guerra. Tomara que a crise econômica não esconda também a insanidade que cerca todas as mortes já ocorridas. Quantas vidas ceifadas por mais uma tolice de um país que se intitulou o “dono do mundo” e o “juiz da paz”.

 

A única coisa que os americanos conseguiram com essa guerra foi mais um atestado de prepotência, burrice e desamor.

Sem intenção

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julgamentoEm julho deste ano, quando João Roberto foi morto por PMs na Tijuca, houve comoção geral. Tanto que, em setembro, a Justiça concedeu aos pais do menino uma indenização de R$ 4.150 mensais e tratamento psiquiátrico. Em outubro, o Estado recorreu da decisão, mas o governador Sérgio Cabral voltou atrás e garantiu os benefícios.

 

Ontem, um dos PMs que executou João Roberto foi absolvido pela Justiça. A mesma que decidiu indenizar a família, reconhecendo um dano irreparável a ela. Fazendo vista grossa a qualquer coerência, o policial foi condenado por lesão corporal leve e responderá em liberdade.

 

Essa história tem diversos ângulos e hoje, vindo para o trabalho, fiquei tentando me colocar no lugar do PM: sem cursos, sem preparação, ganhando R$ 600 por mês. Domingo à noite, perseguição a um carro escuro. Amedrontado, ele se assusta ao ver que o carro parou na calçada. Os bandidos poderiam atirar a qualquer momento. Adrenalina à flor da pele. Ele dá vários tiros e de repente alguém joga um objeto no chão. Não dá pra ver que se trata de uma bolsa de bebê, a rua tem pouca iluminação. Após 17 tiros e total silêncio, ele se aproxima e pergunta: “Cadê os caras?”. Ao invés de encontrar os bandidos, ele se depara com uma mulher e duas crianças, uma delas baleada no banco de trás. E finalmente percebe o engano.

 

Poderíamos encontrar alguma lógica nessa versão se o manual da Polícia Militar não fosse tão claro: o policial só pode atirar em legítima defesa. Afinal, seu papel é prender e não matar. A loucura que virou essa cidade pode explicar em parte o desespero e a seqüência de erros do PM. Mas o paradoxo vem à tona: o mesmo Estado que não dá formação adequada e paga mal a sua polícia é capaz de assumir a culpa, indenizar a família e, logo em seguida, absolver o agente, alegando que ele não tinha intenção de matar a criança.

 

Somos diariamente vilipendiados pelas autoridades de um Estado caótico: Justiça, polícia, deputados e senadores, prefeitos, governadores, Presidente da República. A decisão de ontem é a constatação de que estamos longe da civilidade e muito, muito perto da barbárie.

 

Atualização: Este texto foi publicado também na seção “Opinião”, do Globonline.