Sem intenção

Padrão

julgamentoEm julho deste ano, quando João Roberto foi morto por PMs na Tijuca, houve comoção geral. Tanto que, em setembro, a Justiça concedeu aos pais do menino uma indenização de R$ 4.150 mensais e tratamento psiquiátrico. Em outubro, o Estado recorreu da decisão, mas o governador Sérgio Cabral voltou atrás e garantiu os benefícios.

 

Ontem, um dos PMs que executou João Roberto foi absolvido pela Justiça. A mesma que decidiu indenizar a família, reconhecendo um dano irreparável a ela. Fazendo vista grossa a qualquer coerência, o policial foi condenado por lesão corporal leve e responderá em liberdade.

 

Essa história tem diversos ângulos e hoje, vindo para o trabalho, fiquei tentando me colocar no lugar do PM: sem cursos, sem preparação, ganhando R$ 600 por mês. Domingo à noite, perseguição a um carro escuro. Amedrontado, ele se assusta ao ver que o carro parou na calçada. Os bandidos poderiam atirar a qualquer momento. Adrenalina à flor da pele. Ele dá vários tiros e de repente alguém joga um objeto no chão. Não dá pra ver que se trata de uma bolsa de bebê, a rua tem pouca iluminação. Após 17 tiros e total silêncio, ele se aproxima e pergunta: “Cadê os caras?”. Ao invés de encontrar os bandidos, ele se depara com uma mulher e duas crianças, uma delas baleada no banco de trás. E finalmente percebe o engano.

 

Poderíamos encontrar alguma lógica nessa versão se o manual da Polícia Militar não fosse tão claro: o policial só pode atirar em legítima defesa. Afinal, seu papel é prender e não matar. A loucura que virou essa cidade pode explicar em parte o desespero e a seqüência de erros do PM. Mas o paradoxo vem à tona: o mesmo Estado que não dá formação adequada e paga mal a sua polícia é capaz de assumir a culpa, indenizar a família e, logo em seguida, absolver o agente, alegando que ele não tinha intenção de matar a criança.

 

Somos diariamente vilipendiados pelas autoridades de um Estado caótico: Justiça, polícia, deputados e senadores, prefeitos, governadores, Presidente da República. A decisão de ontem é a constatação de que estamos longe da civilidade e muito, muito perto da barbárie.

 

Atualização: Este texto foi publicado também na seção “Opinião”, do Globonline.

Anúncios

Uma resposta »

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s