Arquivo mensal: janeiro 2009

Quem vai enxugar suas lágrimas?

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Minha semana foi super corrida. Isso que dá acumular o meu trabalho e ainda substituir o amigo em férias. Ossos do ofício! Mas é impossível passar alheia à foto abaixo, mesmo com a maior falta de tempo do mundo.

 

Sim, é mais uma das muitas imagens de uma guerra, como tantas outras que manchetam os jornais. A expressão no rosto da menina, chorando durante o funeral de um agricultor, é o que mais me impactou. Não sei qual o grau de parentesco entre eles, talvez pai e filha, ou avô e neta. O choro da menina é muito forte, tanto quanto seu olhar. Parece pedir socorro.

 

Eu amo crianças. E sei que a foto mexe muito comigo por isso. Passei o fim de semana inteiro em Teresópolis, pensando e planejando as atividades do ano com as crianças da igreja. Foram momentos muito especiais, recheados de ideias, lágrimas, risadas e oração. Fico pensando em como vivem as crianças das guerras, como elas brincam, como ouvem sobre Deus.

 

Escrevo e lamento minha própria acomodação porque sei que o que faço é uma pequena gota no meio de um oceano de problemas. Sei que as lágrimas desta menina vão demorar a secar, e talvez ninguém faça nada por ela. Eu, aqui de muito longe, peço pela sua vida e por uma manhã bem ensolarada e feliz.

Foto: APmenina_gaza

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“É melhor ser alegre que ser triste”

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maysaMaysa, Tom e Vinicius. Esses três personagens tão marcantes da nossa música me ensinaram muito semana passada. E, conscientemente ou não, escrevo sob o impacto da minissérie (olha a nova ortografia aí de novo!) “Maysa – quando fala o coração” e do musical “Tom & Vinicius”.

 

Confesso que sabia quase nada sobre a “rainha da fossa”. Comecei a assistir a minissérie despretensiosamente, mas logo me encantei com a atriz Larissa Maciel e com a trama em si.

 

Maysa foi uma mulher de radicalismos. Apaixonou-se ainda criança por André Matarazzo, homem que tinha idade para ser seu pai. Tanto que o primeiro presente que ela ganhou de seu pretendente foi uma boneca. Com ele, Maysa casou-se ainda menina e conheceu o mundo. Teve um filho – Jayme Monjardim, diretor da minissérie -, mas ainda não estava feliz.

 

E foi essa busca incessante pela felicidade que fez de Maysa uma mulher tão avançada para sua época, mas ao mesmo tempo tão depressiva. Ela via no álcool e nos remédios uma saída para a alegria que nunca encontrava, e colhia como frutos muitos escândalos nas páginas dos jornais.

 

O que mais me impressionou foi a relação dela com o filho. Ela o maltratou muito, o esqueceu num internato na Espanha por 10 anos e era incapaz de demonstrar carinho. Jayme Monjardim disse que perdeu as contas de quantas férias passou sozinho no internato, vendo todas as crianças saírem em viagem com seus pais.

 

Maysa se tornou uma cantora de sucesso, ganhou muito dinheiro, mas continuava perdida. No final da vida, mesmo sem saber que morreria, ela tinha a certeza de que sempre amara seu marido. Ela ainda teve tempo para receber o perdão do filho, mas não teve o privilégio de ser uma mãe presente.

 

O auge da carreira de Maysa foi quando ela gravou as músicas da bossa nova. No domingo, ainda com a minissérie muito acesa na minha cabeça, o personagem do Vinicius cita a Maysa no musical. Foi uma viagem à poesia, ao que mais gosto de ouvir e de cantar.

 

tom-e-viniciusA história de dois grandes amigos, dois gênios da música e da palavra, é contada e cantada de forma majestosa no musical. Impossível não se emocionar com os cantores afinadíssimos, que entram em cena no meio das muitas histórias dos dois boêmios.

 

A certa altura, Tom e Vinicius têm uma longa discussão num bar (O uísque é o cachorro engarrafado!) e defendem a todo custo: bossa nova é samba. Eles não aceitam o rótulo de “música feita por granfinos de Ipanema”, “jazz abrasileirado”. E, quem conhece um pouquinho as poesias de Vinicius sabe que eles têm razão.

 

Diplomata, muito culto e letrado, o poetinha era apaixonado pelo samba. Mas ele viu na batida de João Gilberto o encaixe perfeito para suas poesias. E, como todo gênio, não perdeu a oportunidade.

 

Pena que, até hoje, a bossa nova é vista como um ritmo de elite e jamais conseguiu a massificação do samba, por exemplo. Embora sejamos mundialmente conhecidos por causa da bossa nova, pouco damos valor a ela. Quem vai a Argentina respira Tango no meio da rua. Nós cuidamos muito mal dos filhos da terra.

 

Sou mais feliz por causa de poetas geniais como Vinicius e Tom. Não sei explicar, mas não imagino minha vida sem os versos que decorei, sem as palavras que aprendi por causa deles.

 

A música abaixo, uma de minhas preferidas, foi composta por Vinicius, tem a melodia perfeita de Tom e foi interpretada pela voz marcante de Maysa. Perfeita e genial.

 

Eu não existo sem você

 

Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim

Que nada nesse mundo levará você de mim

Eu sei e você sabe que a distância não existe

Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver

Não há você sem mim
E eu não existo sem você

He’s the man

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Barack Hussein Obama, o homem que guarda em seu nome incrível semelhança com dois grandes inimigos dos EUA, toma posse na próxima terça em meio a uma crise de desesperança mundial. Bancos quebraram e até países inteiros, como a Islândia, estão colhendo os frutos de uma prosperidade volátil. Construída sobre bases fracas e rasas. Capitalismo.

 

Obama é o primeiro presidente negro americano (um dia também chegaremos lá!), tem um sorriso largo e um discurso apaixonado. Conseguiu uma unanimidade impensável dois anos atrás. Marketing certeiro, pioneirismo na utilização das ferramentas digitais, estudo profundo da sociedade para a qual governará. Foi mais difícil desbancar a obstinada Hilary do que seu adversário, propriamente dito.

 

“Yes, we can” são palavras tão simples quanto eficazes. Lembro que me arrepiei ao ver, pela internet, aquela multidão ouvindo seu último discurso antes das eleições. Esperança que estava adormecida. Salve, Martin Luther King!

 

Não acredito que Obama irá promover transformações radicais, embora tenha certeza de que elas são imprescindíveis. Talvez ele as vá aplicando aos poucos, para não assustar a grande parcela da população, que tem só o Tico e Teco mesmo.

 

Torço por cada dia de seu governo, assim como faço ainda com o Lula. O significado dessas duas eleições guarda em si só muito poder. Basta saber como e quando usá-lo.

 

Enquanto o dia da posse não chega, o UOL preparou um joguinho muito legal: “Ajude Barack Obama a assumir a presidência dos Estados Unidos”. Não ache que é um jogo gratuito, é super interessante porque mescla perguntas sobre o Obama com curiosidades sobre a cerimônia de posse. Vale a pena!

 

posse

Notícias insanas de uma segunda-feira

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joao-roberto                                              Do site G1

 

Ãh? Então a Justiça diz que o cara é inocente e a Corporação o condena? A Justiça errou ou a PM ficou com medo das declarações do governador Cabral, que criticou a absolvição?

 

Resumo da ópera: Não há critério, não há justiça. Isso é Brasil.

 hamas

                                                                      Do site O Globo

 

Um Lexotan, por favor. Se depois de 900 mortes a vitória está mais próxima que nunca, imagina quando eles se sentirão derrotados. Ouvi alguns analistas criticando a eleição do Hamas, que foi direta e legítima. Só que os doutores da informação se esquecem de um detalhe: os palestinos não são os únicos que não sabem votar. Basta olhar para o nosso umbigo, certo?

 

Resumo da ópera, que a essa altura já virou cantoria de taquara rachada: Enquanto o ódio estiver à frente do amor, nada adiantará. Simples assim.

Vivendo em comunidade

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hulkAlguém já foi em uma reunião de condomínio sem brigas, gritaria ou discussões tolas? Ontem tive a impressão de que já está no inconsciente coletivo das pessoas: não há assembléia ordinária, extraordinária ou até jogo de baralho em condomínio sem um bom bate-boca.

 

Não sei o que acontece, mas as pessoas vão se transformando ao longo da reunião. O clima começa amistoso, todos se cumprimentam e sorriem. Mas basta a leitura do primeiro item para o Incrível Hulk que há em cada um se revelar.

 

Ontem, cheguei na reunião de condomínio do meu prédio bem no meio de uma discussão acaloradíssima. Foi até engraçado, porque tinha esquecido completamente do compromisso e, ao fechar o portão, já dava para ouvir a gritaria. Aí, lembrei logo: “ah, é verdade, a reunião era hoje”.

 

O mais impressionante é que todo mundo acha que tem uma ideia maravilhosa (repararam no ideia sem acento? É a nova ortografia, caro leitor! Pena que o Word ainda não aprendeu e teima em acentuar, o que torna meu trabalho um pouco mais complicado), uma sugestão brilhante. Até aí, ok. Mas por que raios as pessoas resolvem falar ao mesmo tempo? Impossível manter uma ordem, o síndico ontem desistiu, coitado.

 

Isso sem falar nas ofensas pessoais. E olha que o meu condomínio é super recente, tem apenas um ano, e são só dois prédios de quatro andares. Resultado: não consegui ficar até o final (meu estômago já roncava) e subi para meu apartamento ciente de que nada perderia. Pelo contrário, ganharia menos rugas, ouviria menos asneiras e erros de Português.

 

Minha rebeldia não adiantou muito porque continuei ouvindo a reunião de casa. Mas a TV e a máquina de lavar logo me salvaram do martírio. Quando o marido chegou, até me diverti contando pra ele as discussões surreais e a improdutividade da tal reunião. Ele disse: “ainda bem que eu não estava aqui”. Concordo plenamente.

A História das Coisas

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Dica valiosa dos amigos Felipex e Raphaela, “A História das Coisas” (The Story of Stuff) explica de forma muito objetiva como estamos destruindo nosso planeta. Fala sobre a lógica do consumo, sobre o valor das coisas materiais e sobre a irracionalidade desse sistema em que estamos inseridos.

 

Vale a pena assistir e refletir. A versão abaixo é a original, em inglês. A versão brasileira pode ser vista aqui. 

coisas

“O Sol nas bancas de revista me enche de alegria e preguiça”

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solBem, amigos da Rede Globo! Falamos direeeto de 2009 e damos o pontapé inicial aos posts do ano. Em primeiro lugar, desejo um novo ano cheio de surpresas boas e conquistas. Em segundo, vamos dar um chute no desânimo e no cansaço das festas de fim de ano. Afinal, hoje começa realmente a labuta!

 

Depois de passar o Natal em Cachoeiro, a virada no Rio e os primeiros dias do ano em Teresópolis, ontem finalmente fiquei em casa. Marido trabalhando, aproveitei para assistir a um documentário maravilhoso e super recomendado: “Sol – caminhando contra o vento”. É a história do jornal de mesmo nome, criado e extinto nos anos 60.

 

Muito mais do que a trajetória de um periódico, o documentário traça o perfil de uma época importantíssima na história do país. Fiquei surpresa ao ver quantas pessoas ainda hoje influentes fizeram parte do jornal. Só para citar alguns nomes: Chico Buarque, Hugo Carvana, Ana Arruda, Zuenir Ventura, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gabeira, Ziraldo, Carlos Heitor Cony, entre tantos outros.

 

Adolfo Martins, menos conhecido da grande maioria, também participa do filme. Dono do jornal Folha Dirigida, onde trabalhei por três anos e meio, ele foi o chefe mais louco e paradoxal que já tive. Lembro perfeitamente o dia em que a Tetê Moraes, diretora do documentário, foi gravar com ele no jornal. Ele falou uma frase que eu nunca esqueci, e que pude relembrar ontem: “O Sol não durou muito porque não vendeu a alma”.

 

No decorrer do filme, meu pensamento voou várias vezes. Principalmente quando o Gabeira falou, mais ou menos assim: “Em 68, todos usavam a mesma barba, o mesmo cabelo, falavam as mesmas coisas em diversas partes do mundo. Ninguém sabia como aquilo havia começado, mas de repente todo mundo estava nas ruas”. E isso aconteceu numa época sem internet, sem informação em tempo real. Hoje temos grande facilidade tecnológica, mas uma imensa dificuldade ideológica.

 

sol-21Os artistas ouvidos no filme foram jovens de atitude e unânimes em dizer que eles realmente pensavam que iam mudar o mundo. Incrível como, hoje, eles têm consciência de que estavam enganados ao pensar isso, mas que, se tivessem oportunidade, fariam tudo novamente. E pelo que lutam os jovens de hoje?

 

Essa pergunta calou fundo ao meu coração. A ideologia está fora de moda. O que importa é a praticidade. Esse pensamento fez nascer uma geração vazia e superficial, que deixará um legado pobre e insosso. Os intelectuais de nosso tempo estão nas páginas de Caras e mudaram de nome: chamam-se celebridades.

 

Tenho muito orgulho de manter acesa em mim a chama do pensamento, da reflexão. O dia em que me tornar uma mulher prática e sem questionamentos, perderei o que de mais valioso alguém pode ter: a capacidade de criar, de pensar, de tentar entender o que acontece.

 

Em 2002, fui ao Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Contei detalhes no blog (aqui e aqui também) sobre essa viagem, mas deixo registrado mais um vez o quanto foi importante pra mim saber que existe um novo caminho. É possível construir um mundo mais igualitário e mais justo para todos.

 

Basta pensar nas causas dessa crise financeira absurda: o consumo totalmente desregrado, que gerou um crédito ilusório. O Capitalismo não será mais o mesmo após outubro de 2008. Recebemos um atestado de que esse sistema não funciona. Fico pensando no que fariam os jovens de 68 hoje. Sairiam às ruas, pedindo mudanças urgentes na economia dos países? Uma trégua à destruição do planeta, à matança generalizada?

 

Uma pena que a geração cibernética prefira não cometer excessos. Apesar de conectados com o mundo, eles estão a léguas de distância do pensamento crítico.

 

O Sol foi um jornal-escola, no qual jornalistas experientes passavam o conhecimento a jovens que não necessariamente eram repórteres por formação. Mas tinham todos os ingredientes de um jornalista com J maiúsculo. Hoje, as escolas de comunicação formam profissionais medianos. O Sol formou poetas.