“O Sol nas bancas de revista me enche de alegria e preguiça”

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solBem, amigos da Rede Globo! Falamos direeeto de 2009 e damos o pontapé inicial aos posts do ano. Em primeiro lugar, desejo um novo ano cheio de surpresas boas e conquistas. Em segundo, vamos dar um chute no desânimo e no cansaço das festas de fim de ano. Afinal, hoje começa realmente a labuta!

 

Depois de passar o Natal em Cachoeiro, a virada no Rio e os primeiros dias do ano em Teresópolis, ontem finalmente fiquei em casa. Marido trabalhando, aproveitei para assistir a um documentário maravilhoso e super recomendado: “Sol – caminhando contra o vento”. É a história do jornal de mesmo nome, criado e extinto nos anos 60.

 

Muito mais do que a trajetória de um periódico, o documentário traça o perfil de uma época importantíssima na história do país. Fiquei surpresa ao ver quantas pessoas ainda hoje influentes fizeram parte do jornal. Só para citar alguns nomes: Chico Buarque, Hugo Carvana, Ana Arruda, Zuenir Ventura, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gabeira, Ziraldo, Carlos Heitor Cony, entre tantos outros.

 

Adolfo Martins, menos conhecido da grande maioria, também participa do filme. Dono do jornal Folha Dirigida, onde trabalhei por três anos e meio, ele foi o chefe mais louco e paradoxal que já tive. Lembro perfeitamente o dia em que a Tetê Moraes, diretora do documentário, foi gravar com ele no jornal. Ele falou uma frase que eu nunca esqueci, e que pude relembrar ontem: “O Sol não durou muito porque não vendeu a alma”.

 

No decorrer do filme, meu pensamento voou várias vezes. Principalmente quando o Gabeira falou, mais ou menos assim: “Em 68, todos usavam a mesma barba, o mesmo cabelo, falavam as mesmas coisas em diversas partes do mundo. Ninguém sabia como aquilo havia começado, mas de repente todo mundo estava nas ruas”. E isso aconteceu numa época sem internet, sem informação em tempo real. Hoje temos grande facilidade tecnológica, mas uma imensa dificuldade ideológica.

 

sol-21Os artistas ouvidos no filme foram jovens de atitude e unânimes em dizer que eles realmente pensavam que iam mudar o mundo. Incrível como, hoje, eles têm consciência de que estavam enganados ao pensar isso, mas que, se tivessem oportunidade, fariam tudo novamente. E pelo que lutam os jovens de hoje?

 

Essa pergunta calou fundo ao meu coração. A ideologia está fora de moda. O que importa é a praticidade. Esse pensamento fez nascer uma geração vazia e superficial, que deixará um legado pobre e insosso. Os intelectuais de nosso tempo estão nas páginas de Caras e mudaram de nome: chamam-se celebridades.

 

Tenho muito orgulho de manter acesa em mim a chama do pensamento, da reflexão. O dia em que me tornar uma mulher prática e sem questionamentos, perderei o que de mais valioso alguém pode ter: a capacidade de criar, de pensar, de tentar entender o que acontece.

 

Em 2002, fui ao Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Contei detalhes no blog (aqui e aqui também) sobre essa viagem, mas deixo registrado mais um vez o quanto foi importante pra mim saber que existe um novo caminho. É possível construir um mundo mais igualitário e mais justo para todos.

 

Basta pensar nas causas dessa crise financeira absurda: o consumo totalmente desregrado, que gerou um crédito ilusório. O Capitalismo não será mais o mesmo após outubro de 2008. Recebemos um atestado de que esse sistema não funciona. Fico pensando no que fariam os jovens de 68 hoje. Sairiam às ruas, pedindo mudanças urgentes na economia dos países? Uma trégua à destruição do planeta, à matança generalizada?

 

Uma pena que a geração cibernética prefira não cometer excessos. Apesar de conectados com o mundo, eles estão a léguas de distância do pensamento crítico.

 

O Sol foi um jornal-escola, no qual jornalistas experientes passavam o conhecimento a jovens que não necessariamente eram repórteres por formação. Mas tinham todos os ingredientes de um jornalista com J maiúsculo. Hoje, as escolas de comunicação formam profissionais medianos. O Sol formou poetas.

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