Arquivo mensal: fevereiro 2009

De perto ninguém é normal mesmo…

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lagoa-da-conceicao“Rio 40 graus, cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos”. O famoso verso de Fernanda Abreu nunca fez tanto sentido pra mim quanto essa semana. Parece que o término do horário de verão fez todos os cariocas acordarem mais cedo, o que só aumentou o trânsito já suficientemente caótico.

 

Sol na cara às 7h da matina, buzina de lá, freia de cá. Enquanto tento dormir, ouço os resmungos do marido ao volante: “Esse povo não sabe dirigir!”. Não sei se já disse aqui, mas eu odeio sol. Não há nenhum radicalismo nisso, eu simplesmente não me sinto bem com aquela luz toda, com o calor insuportável que não dá trégua nem à noite.

 

Ironia do destino, nasci em fevereiro, em pleno sábado de carnaval. Logo no mês mais quente do ano, foi vir ao mundo uma quase vampira (minha mãe sempre me chama assim, só porque gosto de manter a casa sempre no escurinho).

 

Para a grande maioria das pessoas, sol é sinônimo de energia, de ânimo, de alegria. Escrevendo assim, estou me sentindo uma ET, mas pra mim é justamente o oposto. Minha pressão abaixa, fico super indisposta. E olha que eu não suo quase nada! Nem preciso dizer do nojinho que tenho daquelas pizzas embaixo dos braços alheios, né?

 

Vou confessar outra peculiaridade minha: sabe aquele domingão de sol, quase meio-dia, em que 90% da população pensa em sair correndo para a praia? Pois é, em dias assim eu só penso em não tirar meu pezinho de casa e tenho arrepios ao pensar em praia. Até porque, em grandes cidades como o Rio, praia é sinônimo de trânsito.

 

Tudo isso pra dizer que hoje, ao chegar no trabalho com todas as sensações descritas acima, lembrei dessa poesia do Vinicius e imediatamente me transportei para um futuro não muito distante…

 

Poder dormir

Poder morar
Poder sair
Poder chegar
Poder viver
Bem devagar
E depois de partir poder voltar
E dizer: este aqui é o meu lugar
E poder assistir ao entardecer
E saber que vai ver o sol raiar
E ter amor e dar amor
E receber amor até não poder mais
E sem querer nenhum poder
Poder viver feliz pra se morrer em paz.

Os Sem-Ética

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vergonhaSabe barriga de grávida aos nove meses de gestação? Pois é, foi deste tamanho a vergonha por que passou a Imprensa brasileira no caso Paula Oliveira.

 

Tudo começou no blog do Noblat, mas logo se pulverizou pela internet e pelos jornalões do país. TODOS, sem exceção, deram a notícia como fato: “Brasileira é alvo de skinheads na Suíça e perde bebês gêmeos”.

 

Afinal, aí estavam todos os ingredientes para uma excelente manchete: desgraça, maus tratos contra brasileiros no exterior, vidas inocentes envolvidas, tudo isso num país da Europa. Bingo!

 

Alguns veículos até se deram ao trabalho de ouvir o pai de Paula Oliveira. Mas ele foi o autor da denúncia, ora bolas! E o tão falado “outro lado”? Será que a Imprensa só errou neste caso ou ele foi o estopim de uma irresponsabilidade que já ocorre há muito tempo?

 

Essa história ainda não terminou, não se sabe ao certo o que realmente aconteceu. Mas todos embarcaram no mesmo argumento, sem refutação. Apuração zero, velocidade mil, como já escrevi aqui no blog. Restou aos veículos a humildade da mea culpa que só posso classificar de risível. Vejam a matéria do site Comunique-se:

 

“Eu acho que a Folha foi mal como todos os outros jornais e veículos de comunicação. Foi precipitada. Compramos a notícia sem confirmação própria”, avalia o ombudsman da Folha de S. Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva.

 

O diretor de conteúdo do Estadão, Ricardo Gandour, afirma que o jornal registrou a informação divulgada pelo Blog do Noblat e foi a campo, com uma entrevista com o pai de Paula Oliveira e informações do Itamaraty. Porém, admite a falta do outro lado da história. “Ficou 24 horas num pé só. Serviu como um aprendizado para o futuro”, diz Gandour.

 

E essa barriga fenomenal quase gera um mal-estar diplomático, pois nossas autoridades também repetiram o discurso único. Microfones para o ministro Celso Amorim e para o presidente Lula, que apenas repetiram a falação.

 

Após a perícia feita na Suíça, e só após ela, a imprensa do país criticou pesado os veículos tupiniquins. Com total razão, com toda propriedade.

 

Aposto minha coleção de canetas que este assunto vai sumir devagarinho das páginas dos jornais e jamais voltará. Vejam quantas linhas serão dadas a ele na próxima semana. 

* Sobre o assunto, vale a pena ler o artigo de Rui Martins, no Observatório da Imprensa.

Do outro lado da ponte

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niteroi2Ontem fui à Niterói, depois de mais de um ano. Desde que juntei as escovas de dente, não havia voltado à cidade que me acolheu por oito anos. O motivo não foi tão agradável: exame médico para renovar a carteira de motorista. Mas pude reviver várias lembranças, bem no estilo Faustão – “nessa hora, passa um fiiilllme pela cabeça”.

 

A barca está super moderna, mas muito barulhenta. O que mais me encantava na antiga era o silêncio ao atravessar a baía (isso quando não estava lotada, claro). Como as janelas estão mais altas, quase não dá para ver a paisagem que é, sem dúvida, o melhor da travessia. Em compensação, a viagem dura metade do tempo: 10 minutos. Até a voz do comandante, que dava boas vindas aos passageiros, foi substituída por aquelas vozes gravadas de mulher de aeroporto, sabe? Eu até me divertia com os gerúndios excessivos dos comandantes e sempre ficava imaginando como seria o rosto de cada um. Coisas de quem tem imaginação fértil…

 

O Centro de Niterói continua o caos. Até achei o Plaza Shopping com uma pintura feia, meio empoeirado. Tive a impressão de estar na meiuca de São Paulo, argh. Mas bastou olhar para a direita que o visual mudou completamente: tinha esquecido como é linda a vista para a Baía de Guanabara. O campus da UFF no Gragoatá, onde estudei por três períodos, continua super charmoso, bem pertinho da baía.

 

Minha visita foi rápida e rasteira, não podia me atrasar tanto no trabalho. Mas me deu uma vontade imensa de ir até meu antigo bairro. Posso fechar os olhos e lembrar exatamente das manhãs de sábado no Ingá. A sensação de descer até a rua e ver o vento nas árvores, os velhinhos passeando com seus cachorros (sim, lá a terceira idade está em peso) é mesmo inexplicável. Bastavam alguns passos para chegar à praia de Icaraí, ao Museu de Arte Contemporânea. Quantas vezes caminhei com minhas amigas por lá, conversando, divagando, sonhando.

 

Sei que esse tempo não volta mais e agradeço a Deus porque fechei um ciclo muito importante da minha vida. Niterói vai sempre significar liberdade para mim. Descobertas, aprendizado, saber viver só, me virar sem meus pais por perto. Tudo isso com apenas 18 anos.

 

Sou uma mulher mais madura e feliz por causa da Cidade-Sorriso.

Humor fino

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millor

 

De hiperlink em hiperlink, novamente me surpreendi: li uma entrevista maravilhosa do Millôr Fernandes na revista Bravo!. Vale a pena para quem gosta de humor irônico e inteligente.

 

Aos 85 anos, Millôr é dono de frases super famosas. Selecionei algumas delas, simplesmente geniais: 

 

“Viver é desenhar sem borracha.”

 

“Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem.”

 

“Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim.”

 

“Certas coisas só são amargas se a gente as engole.”

 

“Não é que com a idade você aprenda muitas coisas; mas você aprende a ocultar melhor o que ignora.”

 

“Chama-se celebridade um débil mental que foi à televisão.”

 

“A ocasião em que a inteligência do homem mais cresce, sua bondade alcança limites insuspeitados e seu caráter uma pureza inimaginável é nas primeiras 24 horas depois da sua morte.”

 

“Pegamos o telefone que o menino fez com duas caixas de papelão e pedimos uma ligação com a infância.”

 

“O poder é o camaleão ao contrário: todos tomam a sua cor.”

 

“Fique tranquilo: sempre se pode provar o contrário.”

E tudo continua como antes

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eleicaoSempre fui apaixonada por política e devo muito aos meus pais por isso. Até hoje este é assunto certo em nossos almoços, embora sinta eu tremores ao encontrar uma Veja perdida no canto da sala.

 

O tema de minha monografia na faculdade foi: “É melhor sofrer no poder do que longe dele – Um estudo sobre a relação de poder entre Antônio Carlos Magalhães e a Imprensa”. Em minhas pesquisas, pude aprender muito sobre a política no Brasil e seus meandros obscuros, as famosas trocas de favores, a podridão.

 

Confesso que falo cada vez menos sobre política. Meus argumentos sempre acalorados estão sendo sutilmente substituídos por suspiros de desaprovação. E só fui me dar conta disso essa semana, quando um amigo me perguntou o que eu achava do Tarso Genro. Parei, pensei, pensei e tive que admitir: “não tenho opinião formada sobre ele. Sei que foi um bom prefeito em Porto Alegre, mas sei também que ele ainda se deslumbra com o poder que tem nas mãos”. Fossem outros os tempos, saberia de muito mais detalhes sobre o caso Battisti e afins.

 

A verdade é uma só (e sei que ela é importante só pra mim mesmo, já que o blog é ótimo para abrigar meus desabafos e devaneios): cansei e me decepcionei com a política. Até a quase unanimidade do Obama já está caindo por terra, com seu protecionismo democrático (Diogo Mainardi, unanimidade negativa entre os coleguinhas brasileiros, já avisava isso há muito tempo!).

 

Escrevo tudo isso pra dizer que relutei em comentar sobre a eleição de Michel Temer e José Sarney para a presidência da Câmara e do Senado, respectivamente. Mas é impossível depois do que li e ouvi hoje. Vou apenas reproduzir os comentários e saibam, caros leitores, que eles expressam exatamente a minha opinião e revolta com o fato:

 

– Comentário do Ricardo Boechat na Band News FM: O escolhido para corregedor da Câmara foi o deputado Edmar Moreira. Sua função é parecida com a de um policial, pois ele pode punir as arbitrariedades de seus colegas. No entanto, uma de suas primeiras declarações foi: “Sofremos do vício insanável da amizade”, deixando clara sua posição de mafioso. Michel Temer, com aquela pose de arauto da moralidade, assistiu a tudo, inerte.

 

casteloNão bastasse isso, Edmar Moreira, que construiu um castelo no sul de Minas Gerais com 36 suítes, declara como bens para a Receita Federal o valor de R$ 17 mil (especula-se que o imóvel vale R$ 25 milhões). Se não for punido pelo crime acintoso, o deputado teria que pagar pela cafonice do tal castelo.

 

– Trecho da despedida do jornalista Mino Carta, que parou de escrever em seu blog e na Carta Capital: E quanto ao poder político? O Congresso acaba de eleger para a presidência do Senado José Sarney, senhor feudal do estado mais atrasado da Federação, estrategista da derrubada da emenda das diretas-já e mesmo assim, graças ao humor negro dos fados, presidente da República por cinco anos.


Outro que foi para o trono, no caso da Câmara, é Michel Temer, um ex-progressista capaz de optar vigorosamente pelo fisiologismo. Reconstitui-se o “centrão” velho de guerra, uma das obras-primas da conciliação tradicional. Enquanto isso, o Brasil ainda divide com Serra Leoa e Nigéria a primazia mundial da má distribuição de renda, exporta commodities, 55 mil brasileiros morrem assassinados todo ano, 5% ganham de 800 reais pra cima. E 2009 promete ser bem pior que pretendiam os economistas do governo.

 

– Frase de um leitor d’OGlobo, escrita na seção Opinião: “É a famosa troca do nada pelo coisa nenhuma”.

Lembranças teen

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Tom Cruise foi o galã da minha adolescência. Que atire a primeira pedra quem nunca recortou a foto dele na Capricho pra colar no guarda-roupa (ou seria guardarroupa? Não consegui tirar essa dúvida cruel!).

 

Talvez por isso tenha achado tão estranho ver globais cafonas como Vera Fischer e Daniele Winits ao lado dele. Vou tratar já de esquecer as imagens abaixo e colocar o meu Tom Cruise de volta às lembranças de um tempo bom.

 

Foto: Ricardo Lealtom-cruise

 

Rio de caos

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transitoDomingo à tarde, Rio de Janeiro. Ouço no rádio que um acidente grave na Linha Vermelha, sentido baixada, deixa o trânsito super complicado por lá.

 

Notando que os motoristas começam a dar ré em seus carros, desesperados, o repórter se apressa em explicar:

 

_ Calma, gente! Não se trata de uma ação criminosa. É apenas um acidente.

 

Pano rápido.