Arquivo mensal: junho 2009

Além da Amarelinha

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Há algo de diferente nesta Seleção Brasileira, que ganhou não só a Copa das Confederações, mas também o troféu de equipe mais disciplinada.

Há algo de diferente nesta Seleção Brasileira, que passou batido pelas edições dos canais de TV e até pelas galerias de foto dos sites.

Há algo de diferente nesta Seleção Brasileira, que faz com que o capitão, após marcar seu gol, olhe para a câmera e diga: “Obrigado, Pai”. E esse algo é tão diferente que confunde até o experiente narrador.

Há algo de diferente nesta Seleção Brasileira, que está embaixo da camisa de diversos jogadores. Uma pequena frase, que foi primeiro estampada no peito do melhor atleta desta mesma Copa das Confederações. E agora virou mania, uma mania bem bonita de se ver.

Há algo de diferente nesta Seleção Brasileira, e só não vê quem não enxerga todo o resto.

copa das confederações

Foto: EFE

Não parem as máquinas

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jornalistaEngraçado perceber que grande parte dos contrários à exigência de curso superior específico para o jornalista ou são donos de grandes veículos de comunicação ou não são jornalistas. Sim, já posso rasgar meu diploma, conquistado com muito suor num vestibular que tinha 36 candidatos por vaga (só perdia para Medicina). Afinal, a decisão dos nobres ministros do STF parece mesmo irreversível.

Poderia ficar horas falando sobre isso, mas vou exercer a objetividade que aprendi com as aulas maravilhosas de Oficina de Textos do professor Dênis de Moraes: não dá pra comparar os jornalistas brasileiros com os americanos e ingleses. Será que esses dois últimos trabalham 12 horas por dia e ganham uma média de R$ 1.500? Será que eles trabalham em redações sucateadas e recheadas de estagiários/escraviários?

Sylvia Moretzsohn, minha professora de Técnica de Reportagem e Ética Jornalística, sempre dizia que era inaceitável esse suposto “glamour” criado dentro da profissão, de que o jornalista, para ser bom de verdade, precisa trabalhar horrores, fumar que nem um maluco e morrer cedo de infarto, estresse ou de tanto tomar café.

Comecei a estagiar na redação de um jornal quando estava no 4º período da faculdade. Fazia exatamente o mesmo trabalho do repórter, mas ganhava muito menos. Trabalhava aos sábados e, eventualmente, aos domingos.

Não posso negar que aprendi muito com a prática do jornalismo, mas ninguém teria comigo a mesma paciência de ler e corrigir cada texto como o professor Teodoro Barros, que ingressou no jornalismo quando nem havia faculdades.

Nunca trabalhei em TV, mas apliquei no jornalismo impresso vários conceitos que aprendi nas aulas de Telejornalismo com a professora Irene Gurgel. Também não sabia nada de Histórias em Quadrinhos até assistir às aulas do famoso professor Moacy Cirne.

Receber os conselhos valiosos do professor Antônio Serra, que eram ouvidos por toda a turma num silêncio impressionante, também foram essenciais na minha formação. Lembro como se fosse hoje do carinho com que ele falava da profissão, enquanto preparava seu cachimbo.

Isso sem falar nas aulas de Filosofia da professora Maria Cristina Ferraz; de História da Arte, com o professor Hélio; de Antropologia, com o Júlio Tavares, que é fera em linguagem corporal.

Com certeza jamais teria assistido ao filme do Kaspar Hauser se não fossem as aulas de Teoria da Percepção do professor Freund, que causavam estranheza e curiosidade na turma toda. Ficávamos horas no escuro discutindo sobre a forma dos sons.

Eu poderia ser jornalista sem ter passado por todas essas experiências? Claro que sim. E sei que as faculdades de Jornalismo não acabarão. No entanto, pensar que muitos repórteres poderão tranqüilamente apurar, entrevistar e escrever matérias sem ter essa bagagem, dá um frio na barriga.

É claro que os jornais estão cheios de colunistas das mais diversas profissões e eles são realmente necessários. Afinal, o jornalista não entende de todos os assuntos. Mas ele entende essencialmente de apuração, de técnica e de ética. Aprender isso na prática, num ambiente muitas vezes pesado e cheio de competição, com condições péssimas, horários malucos e salário mixuruca, me parece no mínimo temerário.

A decisão do STF não contribui em nada com a melhora da qualidade das matérias jornalísticas. Mas contribui muito com a decadência salarial e com a passividade dos repórteres, incapazes de denunciar suas próprias condições de trabalho. Pergunte ao Sindicato dos Jornalistas qual é o piso salarial estipulado por eles e, em seguida, faça uma pesquisa dos salários praticados no mercado.

Liberdade de expressão é ter o direito de me capacitar adequadamente para o exercício da minha profissão. Não aceito aprender só a prática do meu ofício. Não quero apenas ler por conta própria e estudar sozinha. Só quem viveu ou vive o clima de uma faculdade de Jornalismo sabe exatamente do que estou falando.

Perde quem não tem diploma, quem não rala para escrever a monografia e apresentá-la a uma banca de professores. O ânimo de um aluno na faculdade é completamente diferente de um estudante de pós-graduação. Falo porque estou passando agora por isso. Não tenho mais paciência e tempo para ler os textos com calma, para chegar pontualmente às aulas e me dedicar aos estudos. Coisa que eu tinha de sobra aos 18 anos, época de mente aberta para aquele universo encantador à minha frente. Saudade das tardes inesquecíveis na Universidade Federal Fluminense.

* Quer saber o que culinária tem a ver com essa história de diploma? Dona Lapa explica no seu kafofo.

Pequenas reflexões

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Fernando Pessoa, poesia escrita em 7 de janeiro de 1935:

Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?

Não quero a noite senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.

Para quê?… Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria
Ah, com que esmola a aquecerei?

Outra frase pinçada do livro “Deus trabalha no turno da noite”:

Aceitar a mão de Deus é fácil quando você é realista. Realista no sentido de se ver como deve. A tarefa à sua frente é grande demais. A montanha que vai subir é alta demais. As perguntas que lhe são feitas são difíceis demais, e não parecem ter respostas nesta terra.

Tricôs matinais

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profissão repórter* Enquanto fico perplexa com a falta de ética da grande mídia (acho que falei sobre isso ontem o dia todo!), igualmente me surpreendo com a qualidade do programa Profissão Repórter. A matéria de ontem foi uma delícia de assistir, mesmo mostrando a realidade triste de pessoas que vivem isoladas do mundo.

* Já chega dessa overdose de programas imitando Tropa de Elite. Um dos piores é aquele “Força Tarefa”. O filme mostrou uma denúncia de corrupção na polícia superimportante. Mas isso não quer dizer que a gente precise assistir a mesma coisa semanalmente. Até porque é muito triste e, graças a Deus, exceção. Se a maioria dos policiais fossem corruptos, o Rio de Janeiro – acreditem – estaria muito, muito pior.

* Estou lendo “Deus trabalha no turno da noite”, de Ron Mehl, um livro antigo e muito bem recomendado pela Bela. Separei um trecho dele que me marcou ontem:

Alguém me contou que um grupo de pesquisadores estudou certa vez 100 lagartas que estavam prestes a sair da crisálida. Em lugar de permitir que elas se esforçassem, os observadores cortaram delicadamente o invólucro e as libertaram. Depois disso, colocaram os insetos sobre uma mesa e tentaram fazê-los voar. Mas nenhum conseguiu. Nenhum.

O pequeno estudo demonstrou que o período de esforço e luta através das paredes do casulo é que dá às asas da borboleta forças para voar. O próprio esforço – todos os movimentos de empurrar e debater-se – do inseto para libertar-se da prisão é que torna a sua nova vida possível. Sem o conflito, não há força.

* Pausa no blog para o feriadão na capital secreta! Não há nada melhor que recarregar as baterias bem pertinho da família.

Não adianta bater o pé

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jornalEnquanto participo de um dos meus momentos profissionais mais estimulantes, constato cada vez mais o quanto a grande mídia é arrogante. Felizmente há muitos jornalistas sérios, centrados e que refletem. Mas os escandalosos estão se proliferando com uma rapidez incrível. Como são conservadores! Não é à toa que as vendas de jornais impressos só caem, ninguém aguenta mais ler a mesma coisa todos os dias.

Alô!!!! A informação não é mais privilégio dos coleguinhas! A relação entre a fonte e a imprensa mudou! Se eu posso escrever aqui no meu blog tudo o que penso, sem nenhum tipo de censura, é porque a Web 2.0 é uma realidade sem volta.

OK, até entendo que seja difícil se desapegar de um controle exercido durante décadas no Brasil. Mas acabou, game over! Fica parecendo até ridícula essa briguinha de criança quando faz pirraça. As pessoas sabem a diferença entre liberdade de imprensa e desespero, não menosprezem os leitores.

Aprendo a cada dia que a comunicação digital está transformando as relações contemporâneas entre pessoas e entre veículos de informação. E isso é um ganho muito grande porque até o lixo que é produzido na internet pode ser facilmente filtrado pelos próprios leitores. Eu não sou mais obrigada a comprar um jornal e ler nele o que não preciso. Eu tenho o poder de selecionar o que me interessa, e de graça.

Enquanto alguns arrepiam os cabelos, temerosos com o fim da profissão de jornalista, eu comemoro: todos somos jornalistas em potencial sim. Mas só alguns têm a sabedoria de usar todo o conhecimento adquirido em prol de inovações. Sabe por quê? Dá trabalho repensar um modelo que funcionou durante tantos anos. Mesmo que tão mal.

O frio que esquenta meus dias

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outonoSimplesmente A-D-O-R-O esse friozinho. As pessoas caminham mais elegantes, em seus cachecóis, botas e casacos. O céu azul de outono, com sol forte e tão fresquinho, é uma das melhores sensações que experimento ao sair do escritório para almoçar.

Aliás, comida e inverno fazem uma combinação perfeita. Continuo firme na minha dieta não-radical, mas essa semana, quando cheguei em casa e senti aquela friaca, me deu uma súbita vontade de comer uma massa bem gostosa. Abri o freezer e avistei um rondele quatro-queijos maravilhoso que compro no Hortifruti. Bingo! Ainda fiz um frango desfiado com molho branco, ervilhas e palmito para cobrir o rondele, e finalizei com queijo parmesão antes de colocar no forno.

O marido reclamou que estava faltando o vinho, até ameaçou sair para comprar. Mas fiquei com pena, já estava bem tarde. E nem fez falta porque, modéstia parte, o prato ficou sensacional! Simples, rápido e muito saboroso. Sempre vale a pena sair da dieta quando se tem um bom motivo. O meu era: bem-vindo outono-inverno!

O único ônus dessa época do ano é mesmo acordar cedo. Ainda mais com o meu despertador, que me expulsa da cama às 5h45. O bom é que hoje é sexta-feira e amanhã não tenho hora para acordar. Ah não, tenho sim: prometo não acordar antes do almoço.

Um sonho a mais

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parisNão acredito em previsões ou coisa parecida. Mas, na noite anterior ao acidente com o avião da Air France, sonhei que a aeronave onde eu estava tinha caído em Paris.

Pausa para explicação: eu sempre sonho com aviões. Muitas vezes os vejo caindo, outras eu mesma caio, mas nunca morro. Aliás, meus sonhos têm essa peculiaridade: eu sou a heroína da história, vivo salvando minhas irmãs e meus pais. Freud com certeza deve ter uma explicação super retórica para isso.

Voltando ao sonho, foi bem esquisito, a ponto de eu comentar com o marido. Sabe aqueles sonhos enormes, que parecem ter durado a noite toda? Foi assim. Eu estava num avião, o piloto era maluco, super “barbeiro”. Não lembro quem estava comigo, mas era uma pessoa conhecida. A gente dormia em colchões dentro do avião, e dava pra perceber que o piloto estava completamente louco. Mas eu não tinha medo.

Até que, olhando pela janela, avistei Paris. Eu iria para a Espanha, mas por razões que a própria razão desconhece, dei uma passadinha na capital da França antes. E foi incrível a visão que tive no sonho da cidade-luz.

Eu fiz Francês durante três anos e conheço Paris com a palma da minha mão. Não, ainda não fui lá de verdade, mas os vídeos da Aliança Francesa eram um tour completíssimo. Eu ficava vidrada com as igrejas, com os pontos turísticos. Lindo demais.

Por tudo isso, tenho um pouco da geografia de Paris na minha cabeça. No sonho, lembro de ter visto a Notre-Dame lá de cima. De repente, eu estava caminhando pelas ruas de Paris. O engraçado é que eu tinha noção de que o avião havia caído, mas isso não era um problema no sonho. Eu estava caminhando com alguém (não consigo lembrar quem era), super feliz por estar na linda cidade. Incrível como me lembro exatamente da sensação dessa caminhada.

Avistamos o Moulin Rouge e falei imediatamente para a pessoa: “não vamos para a Espanha. Vamos ficar aqui em Paris uns dias e depois pegamos um trem até lá”. No entanto, minutos depois eu estava perto das pessoas do avião, como se fosse num “ponto de encontro”. Quando avistei o piloto, disse: “eu não vou nem morta com esse cara pra Espanha”. E saí correndo pelas ruas de Paris.

Confesso que não tinha percebido a coincidência logo que soube do acidente com o avião da Air France. Só fui me dar conta à noite, conversando com amigos sobre o caso. Mas se eu tivesse mesmo poderes para prever alguma coisa, gostaria de ter antevisto a tragédia e livrado todas aquelas pessoas e famílias de tamanho sofrimento.