Não parem as máquinas

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jornalistaEngraçado perceber que grande parte dos contrários à exigência de curso superior específico para o jornalista ou são donos de grandes veículos de comunicação ou não são jornalistas. Sim, já posso rasgar meu diploma, conquistado com muito suor num vestibular que tinha 36 candidatos por vaga (só perdia para Medicina). Afinal, a decisão dos nobres ministros do STF parece mesmo irreversível.

Poderia ficar horas falando sobre isso, mas vou exercer a objetividade que aprendi com as aulas maravilhosas de Oficina de Textos do professor Dênis de Moraes: não dá pra comparar os jornalistas brasileiros com os americanos e ingleses. Será que esses dois últimos trabalham 12 horas por dia e ganham uma média de R$ 1.500? Será que eles trabalham em redações sucateadas e recheadas de estagiários/escraviários?

Sylvia Moretzsohn, minha professora de Técnica de Reportagem e Ética Jornalística, sempre dizia que era inaceitável esse suposto “glamour” criado dentro da profissão, de que o jornalista, para ser bom de verdade, precisa trabalhar horrores, fumar que nem um maluco e morrer cedo de infarto, estresse ou de tanto tomar café.

Comecei a estagiar na redação de um jornal quando estava no 4º período da faculdade. Fazia exatamente o mesmo trabalho do repórter, mas ganhava muito menos. Trabalhava aos sábados e, eventualmente, aos domingos.

Não posso negar que aprendi muito com a prática do jornalismo, mas ninguém teria comigo a mesma paciência de ler e corrigir cada texto como o professor Teodoro Barros, que ingressou no jornalismo quando nem havia faculdades.

Nunca trabalhei em TV, mas apliquei no jornalismo impresso vários conceitos que aprendi nas aulas de Telejornalismo com a professora Irene Gurgel. Também não sabia nada de Histórias em Quadrinhos até assistir às aulas do famoso professor Moacy Cirne.

Receber os conselhos valiosos do professor Antônio Serra, que eram ouvidos por toda a turma num silêncio impressionante, também foram essenciais na minha formação. Lembro como se fosse hoje do carinho com que ele falava da profissão, enquanto preparava seu cachimbo.

Isso sem falar nas aulas de Filosofia da professora Maria Cristina Ferraz; de História da Arte, com o professor Hélio; de Antropologia, com o Júlio Tavares, que é fera em linguagem corporal.

Com certeza jamais teria assistido ao filme do Kaspar Hauser se não fossem as aulas de Teoria da Percepção do professor Freund, que causavam estranheza e curiosidade na turma toda. Ficávamos horas no escuro discutindo sobre a forma dos sons.

Eu poderia ser jornalista sem ter passado por todas essas experiências? Claro que sim. E sei que as faculdades de Jornalismo não acabarão. No entanto, pensar que muitos repórteres poderão tranqüilamente apurar, entrevistar e escrever matérias sem ter essa bagagem, dá um frio na barriga.

É claro que os jornais estão cheios de colunistas das mais diversas profissões e eles são realmente necessários. Afinal, o jornalista não entende de todos os assuntos. Mas ele entende essencialmente de apuração, de técnica e de ética. Aprender isso na prática, num ambiente muitas vezes pesado e cheio de competição, com condições péssimas, horários malucos e salário mixuruca, me parece no mínimo temerário.

A decisão do STF não contribui em nada com a melhora da qualidade das matérias jornalísticas. Mas contribui muito com a decadência salarial e com a passividade dos repórteres, incapazes de denunciar suas próprias condições de trabalho. Pergunte ao Sindicato dos Jornalistas qual é o piso salarial estipulado por eles e, em seguida, faça uma pesquisa dos salários praticados no mercado.

Liberdade de expressão é ter o direito de me capacitar adequadamente para o exercício da minha profissão. Não aceito aprender só a prática do meu ofício. Não quero apenas ler por conta própria e estudar sozinha. Só quem viveu ou vive o clima de uma faculdade de Jornalismo sabe exatamente do que estou falando.

Perde quem não tem diploma, quem não rala para escrever a monografia e apresentá-la a uma banca de professores. O ânimo de um aluno na faculdade é completamente diferente de um estudante de pós-graduação. Falo porque estou passando agora por isso. Não tenho mais paciência e tempo para ler os textos com calma, para chegar pontualmente às aulas e me dedicar aos estudos. Coisa que eu tinha de sobra aos 18 anos, época de mente aberta para aquele universo encantador à minha frente. Saudade das tardes inesquecíveis na Universidade Federal Fluminense.

* Quer saber o que culinária tem a ver com essa história de diploma? Dona Lapa explica no seu kafofo.

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  1. Hoje no Jornal A Gazeta saiu uma reportagem dizendo que essa ‘reforma’ será feita com outros cursos também. Será que alguém achou essa idéia legal???
    Acho interessante esse pensamento… rs! Então não é mais um diferencial/exigência do mercado a capacitação dos profissionais?
    É verdade, só assim nosso país vai melhorar mesmo, afirmando claramente que investir em educação não é prioridade.

  2. Pensando sobre isso na prática, tenho realmente a dúvida de se a não-exigência muda alguma coisa. Já existiam nas redações escritores que se diziam jornalistas sem nunca ter passado por uma aula de técnica de redação, reportagem, introdução ao jornalismo, história da imprensa ou seja lá o que for. Esses não vão sair de lá, ok. Mas as redações vão divulgar vagas com um perfil que exclua a “formação em jornalismo”? Vão colocar o que no anúncio? Precisa-se de pessoas com mais de 18 anos, alfabetizadas, que se sujeitem a ganhar mal, muito mal mesmo, não ter hora para sair do trabalho, não passar Natal, Páscoa ou qualquer outra dessas datas sem sentido em casa, esquecer que tem família, amigos e que domingo é dia de nem pensar em trabalho…

    Outra questão que me intriga quando penso nisso é que, se usarmos o mesmo raciocínio que tirou a exigência de diploma para ser jornalista, vamos acabar com o diploma em muitas outras carreiras. Afinal se “Não existe no exercício do jornalismo nenhum risco que decorra do desconhecimento de alguma verdade científica”, este risco não existe em muitas outras áreas. Por exemplo: Se vc pegasse o código civil, ou seja lá qual lei que se aplicasse ao seu problema jurídico, e estudasse bastante aquilo ali, vc conseguiria se defender em um tribunal? Eu acho que sim! Enfim, daqui a pouco, não precisaremos de diploma também para advogado e sabe-se lá para o que mais. Será que o STF quer o fim do curso superior? Ainda bem que eu já não trabalho mais em uma faculdade!

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