O senhor, a mocinha e a Unimed

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Acordei bem cedo, antes das oito. Tava um friozinho bom, o quarto bem escuro. Mas tínhamos que sair logo, ver os últimos detalhes do plano de saúde antes do marido ir pro trabalho.

Pegamos o carro, mas nem precisava, porque a Unimed fica bem pertinho de casa. Chegando lá, fomos muito bem atendidos. Com a documentação em mãos, foi fácil preencher a ficha e ser incluídos na lista de sortudos que têm um plano de saúde particular.

Enquanto o marido tirava as últimas dúvidas, um senhor me chamou atenção. Chegando com duas muletas, ouviu da mocinha: “Espere só um minuto que já venho lhe atender”. Não demorou, é verdade. Ela prosseguiu: “O senhor não quer sentar?”. Ele disse: “Não sei se dá”. Não entendi muito bem até olhar para a cadeira, eram aquelas de braço, que dificultam bastante a vida de um deficiente físico. Mas ele conseguiu.

Foi pessoalmente à Unimed porque tomou um grande susto ao ver o boleto de pagamento, cujo valor tinha dobrado: R$ 1.500. Foi informado pelo filho, e logo disse: “Com certeza é um engano, eles devem ter errado”. A mocinha virou-se para o computador e voltou com a pergunta: “O senhor tem 60 anos?”.

“Sim, completei mês passado”, disse, sem entender. “Ah, então é isso! O plano foi reajustado, mas esse será o último reajuste que o senhor terá”. Como se isso fosse uma boa notícia. Pra mim soou mais como um aviso do tipo “o senhor não tem mais muito tempo de vida para reajustes”.

Quase sem acreditar, ele perguntou: “mas o valor dobrou, como pode? Ninguém me avisou nada!”. De pronto, a mocinha respondeu, no estilo clássico: “Isso estava previsto no contrato, senhor”.

Ainda não sendo suficiente, ela perguntou: “a sua esposa vai fazer 60 anos quando?”. “Em agosto. Acontecerá o mesmo com o plano dela, é isso?”. “Sim, também será reajustado pela última vez”.

“Mas como vou pagar R$ 3 mil de plano de saúde? Vou ficar sem ter o que comer ou terei que acabar com o meu plano e o da minha esposa”. Com a mesma cara de paisagem, a mocinha disse: “sinto muito, senhor”.

Ele pegou o boleto da mesa, guardou no bolso e, com muita dificuldade, conseguiu se levantar. Ao sair da sala, ainda tentou fechar a porta, quando a mocinha falou: “pode deixar aberta, senhor”.

E eu, que acabava de receber da outra mocinha o Guia Médico e as boas vindas à Unimed, engoli seco. Com o coração muito apertado, pensei no quanto eu, aquele senhor e as mocinhas da Unimed somos parecidos. E ao mesmo tempo tão diferentes. Um abismo chamado desigualdade social nos separa. É isso que define quem terá uma assistência decente à saúde, que deveria ser de graça e para todos.

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Uma resposta »

  1. Pior…
    Me faz pensar que daqui há 30 anos, também entrarei em uma sala de atendimento e ouvirei de uma mocinha com ar blasé “sinto muito, senhora! Seu plano dobrou o valor, mas esse será seu último reajuste.”
    Decerto.
    Nos deparamos com a abusividade, a ganância e o total desrespeito. E, como você bem disse, a saúde, que deveria ser um direito (já que, com o valor dos impostos pagos, não deveriamos chamá-la gratuita…até porque o termo me parece paternalista, algo doado de livre e espontânea vontade – contrário ao real/existente), está vil e sorrateiramente sendo terceirizada.
    Idiossincrasias da política brasileira.
    Vida que segue?

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