Arquivo mensal: julho 2011

Insônia

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E já que o sono não vem, o jeito é escrever. É o que tem pra hoje, a única coisa que sei (ou acho que sei) fazer bem na vida. E mesmo assim, por vezes prefiro pegar palavras emprestadas das poesias. Não por preguiça, mas por gosto. Sempre aprecio mais o que escrevem meus poetas favoritos do que minhas mãos previsíveis. Elas, no máximo, tornam tangíveis meus pensamentos. E isso nem sempre é bom.

Já os poetas, não. Eles têm licença para ser ou não espelho de suas criações. Caso alguém pergunte, podem dizer: “Não, era apenas um personagem”. Comigo não é assim. Minha poesia sou eu, e isso nem sempre é bom.

Preciso aprender a ser menos eu nos próximos 30 anos. Balzac poderia me ajudar, se não tivesse escrito uma história tão espelho, espelho meu.

Mas lá no fundo, onde toca aquela música e só se ouve uma poesia, um horizonte feliz sempre surge. E eu prendo a respiração.

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Do it

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E já que Paris não saiu de mim essa semana, segue a trilha deliciosa do filme inesquecível. Ah seu Woody, isso não se faz…

Let’s Do It
Cole Porter

When the little bluebird
Who has never said a word
Starts to sing Spring
When the little bluebell
At the bottom of the dell
Starts to ring Ding dong Ding dong
When the little blue clerk
In the middle of his work
Starts a tune to the moon up above
It is nature that is all
Simply telling us to fall in love
And that’s why birds do it, bees do it
Even educated fleas do it
Let’s do it, let’s fall in love

Cold Cape Cod clams, ‘gainst their wish, do it
Even lazy jellyfish do it
Let’s do it, let’s fall in love
I’ve heard that lizards and frogs do it
Layin’ on a rock
They say that roosters do it
With a doodle and cock
Some Argentines, without means do it
I hear even Boston beans do it
Let’s do it, let’s fall in love.

Ítaca

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Se partires um dia rumo a Ítaca
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem os Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não o levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda espécie,
quando houver, de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha, velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso, não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

Konstantinos Kaváfis
(tradução de José Paulo Paes)