Arquivo mensal: agosto 2012

Perdi um amigo

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Quando você chegou, eu já tinha saído da casa dos meus pais para estudar fora. Nunca tivemos uma convivência diária, mas nossa amizade era bem bonita. Amizade que, para mim, pressupõe companheirismo, tolerância, carinho. E foi exatamente assim nos últimos 10 anos.

Gostava de chegar em casa e correr para te pegar no colo. No começo, você era levinho e depois foi ficando uma bolinha de pêlo pesada. Você gostava de cheirar minhas roupas dentro da mala e de dormir na minha perna. O cantinho direito do sofá vermelho era seu.

As flores de plástico da mamãe sofreram com seus dentes afiados. Nem o temido jornal enrolado era capaz de te afastar delas. Aliás, comer era um ritual divertido para nós. Eu me agachava ao seu lado e ficava fazendo carinho enquanto você comia. Mas antes, você dava umas dez voltas em mim, talvez agradecendo por aquele gesto. Mesmo ficando meses fora de casa, você sempre lembrava desse ritual e me chamava para comer com você.

Seu miado foi também mudando. Nos últimos tempos, já estava mais rouco. Você dormia quase o dia todo. Bem diferente de quando era pequeno. Dizíamos que você fumava maconha à noite, de tão elétrico que ficava.

Você se divertia muito com meu pai. Ele te empurrava pelo corredor e você deslizava rápido com o tapete da sala. No frio, você corria para embaixo do edredom da minha mãe. No calor, aproveitava o ar condicionado do quarto. Falávamos que era uma vida de rei.

Shamy, obrigada por me ensinar tantas coisas importantes sobre o que mais importa na vida. Você foi um grande amigo.

Da preguiça como método de trabalho

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[…]
A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda. Não poderia viajar pelo mundo inteiro.
Conta-se que em fins do século passado, num remoto país do Oriente, a viagem da capital à fronteira levava nada menos que trinta dias, e ainda por cima a lombo de camelo. E sucedeu que um engenheiro britânico ali residente, em nome do progresso, resolveu remediar a coisa.

– Enfim – concluiu ele, após uma audiência com o respectivo xá, ou coisa que o valha – , construindo-se a estrada de ferro de que o país tanto necessita, a viagem até a fronteira poderá ser feita em um só dia!

– Mas – objetou o velho monarca que o ouvira com uma paciência verdadeiramente oriental – o que é que a gente vai fazer dos vinte e nove dias que sobram?!

… E mais confortador das longas viagens de trem são esses burricos pensativos que vemos à beira da estrada e nos poupam assim o trabalho de pensar…

Certa vez abalancei-me a um trabalho intitulado “Preguiça”. Constava do título e de duas belas colunas em branco, com a minha assinatura no fim. Infelizmente não foi aceito pelo supercilioso coordenador da página literária.
Já viram desconfiança igual?

Censurar uma página em branco é o cúmulo da censura.
Em suma: o que prejudica a minha preguiça prejudica o meu trabalho.

Compensação:
Suave preguiça que, do mal querer
E de tolices mil, ao abrigo nos pões…
Por tua causa, quantas más ações
Deixei de cometer!

[Mario Quintana – Editora Nova Aguilar, página 631]