Da preguiça como método de trabalho

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[…]
A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda. Não poderia viajar pelo mundo inteiro.
Conta-se que em fins do século passado, num remoto país do Oriente, a viagem da capital à fronteira levava nada menos que trinta dias, e ainda por cima a lombo de camelo. E sucedeu que um engenheiro britânico ali residente, em nome do progresso, resolveu remediar a coisa.

– Enfim – concluiu ele, após uma audiência com o respectivo xá, ou coisa que o valha – , construindo-se a estrada de ferro de que o país tanto necessita, a viagem até a fronteira poderá ser feita em um só dia!

– Mas – objetou o velho monarca que o ouvira com uma paciência verdadeiramente oriental – o que é que a gente vai fazer dos vinte e nove dias que sobram?!

… E mais confortador das longas viagens de trem são esses burricos pensativos que vemos à beira da estrada e nos poupam assim o trabalho de pensar…

Certa vez abalancei-me a um trabalho intitulado “Preguiça”. Constava do título e de duas belas colunas em branco, com a minha assinatura no fim. Infelizmente não foi aceito pelo supercilioso coordenador da página literária.
Já viram desconfiança igual?

Censurar uma página em branco é o cúmulo da censura.
Em suma: o que prejudica a minha preguiça prejudica o meu trabalho.

Compensação:
Suave preguiça que, do mal querer
E de tolices mil, ao abrigo nos pões…
Por tua causa, quantas más ações
Deixei de cometer!

[Mario Quintana – Editora Nova Aguilar, página 631]

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