Perdi um amigo

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Quando você chegou, eu já tinha saído da casa dos meus pais para estudar fora. Nunca tivemos uma convivência diária, mas nossa amizade era bem bonita. Amizade que, para mim, pressupõe companheirismo, tolerância, carinho. E foi exatamente assim nos últimos 10 anos.

Gostava de chegar em casa e correr para te pegar no colo. No começo, você era levinho e depois foi ficando uma bolinha de pêlo pesada. Você gostava de cheirar minhas roupas dentro da mala e de dormir na minha perna. O cantinho direito do sofá vermelho era seu.

As flores de plástico da mamãe sofreram com seus dentes afiados. Nem o temido jornal enrolado era capaz de te afastar delas. Aliás, comer era um ritual divertido para nós. Eu me agachava ao seu lado e ficava fazendo carinho enquanto você comia. Mas antes, você dava umas dez voltas em mim, talvez agradecendo por aquele gesto. Mesmo ficando meses fora de casa, você sempre lembrava desse ritual e me chamava para comer com você.

Seu miado foi também mudando. Nos últimos tempos, já estava mais rouco. Você dormia quase o dia todo. Bem diferente de quando era pequeno. Dizíamos que você fumava maconha à noite, de tão elétrico que ficava.

Você se divertia muito com meu pai. Ele te empurrava pelo corredor e você deslizava rápido com o tapete da sala. No frio, você corria para embaixo do edredom da minha mãe. No calor, aproveitava o ar condicionado do quarto. Falávamos que era uma vida de rei.

Shamy, obrigada por me ensinar tantas coisas importantes sobre o que mais importa na vida. Você foi um grande amigo.

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