Arquivo mensal: maio 2015

O tempo

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Ela tem aprendido muito com o tempo. O que escapa de suas mãos a todo momento é o mesmo que custa passar. Aquele que cura e que traz novas perguntas. Que te ensina a conhecer o outro, que suprime a distância. Não totalmente, tamanha é sua ousadia.

O tempo investido é precioso, é vida que não volta. É tempo de escolher como viver o tempo. De que forma vale à pena dar e receber tempo de alguém. Só não pode perder. Tempo.

De uns tempos pra cá, a TV não tem sido ligada. Só há música pela casa. Ou silêncio. O tempo do pensamento que voa virou prioridade. São tantos planos pra daqui a pouco tempo. São sonhos que há tanto tempo quer realizar. E vai.

Tempo que passa consigo mesma. Tempo de viagens. De correria e de calmaria.

Ela tem aprendido a brincar com o tempo, mas o leva muito a sério.

Tens tempo.

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Cartão de visita

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Quem quiser morar em mim
Tem que morar no que o meu samba diz
Tem que nada ter de seu
Mas tem que ser o rei do seu país
Tem que ter uma vidinha folgada
Mas senhor do seu nariz
Tem que ser um “não faz nada”
Mas saber fazer alguém feliz

Tem que viver devagarinho
Pra poder ver a vida passar
Tem que ter um pouco de carinho para dar
Precisa, enfim, saber gastar e ao receber uma esmolinha
Dar de troco o céu e o mar
Tem que ser um louco
Mas um louco para amar

Vai ter que ter tudo isso
Tudo isso pra contar

Vinicius de Moraes

Ostra feliz não faz pérola

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Presente que a Amanda me deu hoje, logo cedo.

Ostras são moluscos, animais sem esqueleto, macias, que representam as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, com pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas – são animais mansos –, seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse, a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem.

Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário. Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão…”.

Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda.

Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia, passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada.

O pescador se alegrou, levou-as para casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra. Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma pérola, uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fi zera uma pérola. Ele a tomou e deu-a de presente para a sua esposa.

Isso é verdade para as ostras. E é verdade para os seres humanos. No seu ensaio sobre O nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música , Nietzsche observou que gregos, por oposição aos cristãos, levavam a tragédia a sério. Tragédia era tragédia. Não existia para eles, como existia para os cristãos, um céu onde a tragédia seria transformada em comédia. Ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo. A resposta que encontrou foi a mesma da ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza. A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta. Mas ela não cria. Não produz pérolas. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer. Esses são os artistas. Beethoven – como é possível que um homem completamente surdo, no fi m da vida, tenha produzido uma obra que canta a alegria? Van Gogh, Cecília Meireles, Fernando Pessoa…”.

A pergunta não deveria ser: ‘Você acredita em Deus?’, mas: ‘Você se comove com a beleza?’. Deus nunca foi visto por ninguém. Ele se mostra na experiência da beleza.

[Rubem Alves]