Arquivo mensal: setembro 2015

O amor vem

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Texto de uma amiga querida, que tem mais de 50 anos e fez questão de explicitar em palavras o quanto está feliz. Por mais relatos e dizeres como esse.

“Existem homens que nos mutilam: a alma, o corpo, os sonhos, as roupas, os gestos, a ideologia e a oportunidade. Nos decepam porque nos consideram uma ameaça. Porém, há outros que nos enxergam em nossa totalidade. E nos fazem mulheres plenas. Felizes, abertas, sensíveis. Flores polinizadas.

Procurem. Esperem. O amor vem. Não importa o quanto a vida já correu. Nem suas rugas, cicatrizes, peso ou conta bancária. Nesse dia, abram a janela, encham a casa de música, façam comida e não durmam. Seus dias serão sempre sol”.

Poeminha do eclipse

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E hoje, quando Sol, Terra e Lua estiverem na mesma linha
Que haja cura nos hospitais
Que meninos voltem pra casa
Que mães e pais perdoem seus filhos
Que acabe uma guerra
Que a fé se renove
Que amores sejam redescobertos
Que os risos aumentem
Que alguém filosofe
Que a vida fique mais offline
Que o dinheiro não importe
Que a felicidade exista

E que ele pense nela.

Carne

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Que importa se a distância estende entre nós léguas e léguas
Que importa se existe entre nós muitas montanhas?
O mesmo céu nos cobre
E a mesma terra Iiga nossos pés.
No céu e na terra é tua carne que palpita
Em tudo eu sinto o teu olhar se desdobrando
Na carícia violenta do teu beijo.
Que importa a distância e que importa a montanha
Se tu és a extensão da carne
Sempre presente?

(Vinicius de Moraes)

A palavra

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…Sim, Senhor, tudo o que queria, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam… Prosterno-me diante delas… Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as… Amo tanto as palavras… As inesperadas… As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem… Vocábulos amados… Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho… Persigo algumas palavras… São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema… Agarro-as no voo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas… E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as… Deixo-as como estalactites em meu poema, como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes na onda… Tudo está na palavra… Uma ideia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu… Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes…

(Pablo Neruda, em “Confesso que Vivi”)