Arquivo mensal: novembro 2015

Uma facada certeira

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Quero saber

Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com uma condição: não nos compreender

Pablo Neruda (Últimos Sonetos)

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Uma viagem para dentro de mim

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Amanhã vai fazer uma semana da viagem mais maravilhosa da minha vida. É impossível descrever em palavras o que vivi em Bilbao e Madrid, mas vou tentar.

Viajar sozinha é uma experiência única. Estava com medo, confesso. Ainda bem que fui encorajada. “É bobagem, Lívia, você vai é viciar”. De fato.

De tudo o que vivi, talvez o mais marcante tenha sido a sensação de liberdade. Eu praticamente não planejei essa viagem, só o essencial. Então, meu roteiro foi sendo feito conforme meus olhos iam enxergando as coisas e os lugares, com base na recomendação dos amigos dos hostels. Ah, os hostels… como foi maravilhoso conhecer pessoas do mundo todo, ter certeza de que sou fluente no inglês, praticar o espanhol e até arranhar o francês.

Não ter que fazer concessões. Quando se viaja com alguém, é normal ter que ceder em diversas ocasiões e isso, em si, não é um problema. Mas viajar sozinha é fazer somente o que quer, como quer, por quanto tempo quer. Sem dar satisfações, sem precisar argumentar, sem stress. É uma paz indescritível.

Estar aberta para o inesperado. Perceber a gentileza das pessoas contigo. Ouvir o barulho e o silêncio da cidade. Ter encontros surpreendentes. Flanar, flanar, flanar. Divertir-se com os melhores amigos recém-feitos. Andar a pé de madrugada pelas ruas de Madrid, vendo o sol nascer. Passar longe de shopping e afins. Comprar um livro de poesias na feirinha de rua e uma bata no brechó. Encontrar lugares bons e baratos para comer. Ficar três horas no museu, percebendo cada detalhe das obras de Picasso, Miró e Dali.

Nem que eu viva 500 anos esquecerei os dias ensolarados que a Espanha me deu. Porque a vida é uma viagem emocionante.

Sobre trocar poesias

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Grandes são os desertos

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.

(Álvaro de Campos – Fernando Pessoa)