Arquivo da categoria: Entrevistas

Pedro Bandeira: Palavras que têm gosto de infância

Padrão

pedrobandeira                                              Foto extraída do site da editora Objetiva

Você já ouviu falar em Miguel, Crânio, Calu, Magrí e Chumbinho? Se a associação imediata for “os Karas”, bem-vindo: você faz parte da “geração Pedro Bandeira”. Autor de Literatura Juvenil mais vendido no Brasil (são mais de 21 milhões de exemplares), ele possui uma rara relação de afeto com seus leitores. Inclusive comigo.

Neste bate-papo, Pedro Bandeira conta que, embora se dedique noite e dia a pensar em lançar uma nova aventura com os Karas, ainda não conseguiu sequer começar. Ainda bem que ele se inspira em diversos horizontes. O escritor tem mais de 70 livros publicados, todos eles voltados para o público infanto-juvenil. E ele se orgulha disso: “Em Literatura, faço como na Medicina: há pediatras e geriatras. Sou um pediatra literário”.

Como foi difícil conseguir seu e-mail! Quando digitei no Google “e-mail Pedro Bandeira”, me surpreendi com o resultado. Descobri que muita gente também está à procura de algum contato seu, em fóruns e “Fale Conosco” espalhados pela internet. A que você atribui essa procura? Há vários escritores famosos, que têm livros de grande sucesso, mas que não despertam esse interesse e não possuem esse carisma…

Pedro Bandeira: Sabe que também eu me surpreendi quando descobri todos os links com o meu nome no Google e com todas as comunidades que tenho no Orkut? É claro que isso me deixou muito feliz! Quando comecei a escrever para a juventude, não existiam estas ferramentas, mas o grande número de cartas que eu recebia semanalmente já apontava para uma aceitação muito grande de minhas histórias (hoje as cartinhas foram substituídas pelos e-mails). Por suas pesquisas, você pôde observar que esse sucesso é espontâneo, vem dos próprios leitores. Eu jamais tive o apoio de técnicas de marketing, de assessores de imprensa, da universidade, nem das comissões que distribuem prêmios literários. Cheguei a vencer o prêmio Jabuti e mais alguns outros, mas dependo do passar do tempo, quando meus leitores vão se tornando adultos e se profissionalizam, como você.

Moro há 9 anos no Rio de Janeiro, mas sou de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo. Os livros dos karas eram leitura obrigatória na biblioteca da minha escola. “A droga da obediência”, “Pântano de Sangue” e “Anjo da Morte” eram disputados quase à tapa pelos meus colegas. E a gente tinha um pacto: quem lesse primeiro não poderia contar uma vírgula para o outro. Senão perderia toda a graça. Quando soubemos que estava para ser lançado “A droga do amor”, fizemos uma lista de espera. E meu nome foi o primeiro! Depois ainda veio “A droga de Americana” e, mesmo não sendo mais tão criança, li com enorme prazer e nostalgia. Soube que você estava reescrevendo “A droga virtual”. Como anda a produção?

Pedro Bandeira: “A droga virtual” foi um projeto que teve de ser abandonado, pois pretendia basear-se em informática e, como esse ramo é dinâmico demais, meu livro ficou obsoleto antes de ser impresso. Note que a série com os Karas iniciou-se antes do advento do computador pessoal, da Internet, do MSN, do telefone celular… Os Karas, quando querem telefonar, correm em busca de um orelhão! Ainda assim, a série se tornou clássica, sendo aceita por jovens do século XXI, porque trata de sentimentos humanos, de sonhos de justiça e ética, que são imortais. Isso a tecnologia e o progresso não mudam.

Mas você ainda pensa em dar seqüência às aventuras dos Karas?

Pedro Bandeira: Devo fazer mais um livro com os Karas. No entanto, embora eu me dedique noite e dia a pensar nisso, ainda não consegui sequer começar…

Sou jornalista e meu sonho sempre foi trabalhar numa redação de jornal diário. Lembro que, quando vim fazer faculdade no Rio de Janeiro, passava pelo lindo prédio do Jornal do Brasil e sentia um frio na barriga. Meus olhos brilhavam. Mas descobri a internet e suas infinitas possibilidades no meu atual emprego e hoje me sinto realizada lidando com o mundo virtual. Ele também te fascina?

Pedro Bandeira: Fui jornalista no tempo dos linotipos e da composição manual, que se media por “cíceros”, “paicas” e “furos”. Como disse acima, tentei abordar o novo mundo da moderna tecnologia em “A droga virtual” e dei um tiro n’água. Minha praia são os sentimentos humanos, são os sonhos de um futuro melhor e mais justo para a humanidade. Na modernidade eu afundo. Eu sonho o que já sonharam Homero, Shakespeare, Cervantes e Machado de Assis. Por isso, eles se tornaram clássicos. Com livros como “O fantástico mistério de Feiurinha”, “A marca de uma lágrima” e “A droga da obediência”, ando sendo aceito há quase trinta anos, de geração a geração. Então, imodestamente, acho que ando flertando com a Eternidade!

Quem são os escritores que você admira? Há um pouco deles nos seus livros?

Pedro Bandeira: São tantos! Na frente vêm Shakespeare e Machado. Mas, desde pequeno, me acompanham Lobato e Mark Twain. Se você misturar tudo isso, com um molho de Poe, Jack London, Dostoiévisky, Conan Doyle, Agatha Christie, Georges Simenon, Érico Veríssimo, Jorge Amado, mais autores folhetinescos como Dumas, Rice Burroughs, Maurice Leblanc e Rafael Sabatini, dará uma salada com todos os sabores que não sei se você poderá degustar em meus livros. No primeiro deles, “O dinossauro que fazia au-au”, tentei conscientemente imitar Monteiro Lobato, do modo que eu acho que ele escrevia. Mas, a partir de meus livros de poemas e da série dos Karas, acho que passei a ser eu mesmo.

Você pensa em escrever para os adultos? É claro que eles podem perfeitamente ler seus livros, mas você faria, por exemplo, uma aventura policial ou um romance voltado para este público?

Pedro Bandeira: Em Literatura, faço como na Medicina: há pediatras e geriatras. Sou um pediatra literário.